Baveno VIII x ASGE: manejo do sangramento varicoso
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ASGE x Baveno VIII – Diferenças no manejo do sangramento varicoso

por Ivan R B Orso
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Em 2026, duas publicações importantes atualizaram a discussão sobre o manejo da hemorragia digestiva varicosa aguda: o guideline da ASGE e o consenso Baveno VIII. Ambos partem de princípios semelhantes, como ressuscitação criteriosa, estratégia transfusional restritiva, início precoce de drogas vasoativas e antibioticoprofilaxia nos pacientes cirróticos com sangramento digestivo alto.

Apesar dessa base comum, há algumas diferenças na aplicação prática das recomendações. O tempo ideal para endoscopia, a indicação de intubação orotraqueal, a duração da terapia vasoativa, o uso de eritromicina antes do exame, o papel do TIPS precoce e a abordagem das varizes gástricas não se apresentam exatamente da mesma forma nos dois documentos.

Este artigo compara os principais pontos de divergência entre ASGE 2026 e Baveno VIII, com foco nas decisões que impactam diretamente a rotina do endoscopista e da equipe que atende pacientes com sangramento varicoso.

1. Tempo para a Endoscopia Digestiva Alta (EDA)

Baveno VIII x ASGE: tempo para endoscopia digestiva alta
  • ASGE (2026): sugere que a EDA seja realizada em até 24 horas da apresentação inicial, enfatizando que a ressuscitação e estabilização hemodinâmica adequada não devem ser apressadas para tentar realizar o procedimento antes de 12 horas.
  • Baveno VIII (2026): recomenda a realização da EDA em até 12 horas da admissão, após a ressuscitação. Em pacientes hemodinamicamente instáveis, orienta realizar o procedimento o mais rápido possível.

2. Intubação Orotraqueal Profilática (PEI)

Baveno VIII x ASGE: intubação orotraqueal profilática
  • ASGE (2026): posiciona-se contra a intubação profilática de rotina antes da EDA apenas para proteção de via aérea, destacando que estudos demonstraram maior mortalidade e complicações como aspiração na intubação de rotina. A intubação deve ser reservada para indicações clínicas (rebaixamento de consciência, hematêmese maciça contínua ou insuficiência respiratória).
  • Baveno VIII (2026): recomenda a intubação pré-EDA em pacientes com alteração do nível de consciência ou hematêmese ativa, orientando extubação precoce logo após o procedimento.

3. Duração da Terapia Vasoativa

Baveno VIII x ASGE: duração da terapia vasoativa
  • ASGE (2026): sugere um curso curto de 2 a 3 dias de drogas vasoativas (terlipressina, somatostatina ou octreotida), por demonstrar redução do tempo de internação hospitalar sem aumento do risco de ressangramento ou mortalidade.
  • Baveno VIII (2026): recomenda manter os vasoativos por 2 a 5 dias (ou até a colocação de TIPS). No entanto, pontua que um curso ultracurto de até 24 horas pode ser considerado após hemostasia endoscópica eficaz, desde que o betabloqueador não seletivo (NSBB) seja iniciado em seguida.

4. Procinéticos Pré-endoscopia (Eritromicina)

  • ASGE (2026): não inclui a eritromicina pré-procedimento como recomendação no seu algoritmo principal.
  • Baveno VIII (2026): recomenda uma dose única de eritromicina IV (250 mg, 30–90 min antes da EDA) para otimizar o esvaziamento gástrico e melhorar a visualização endoscópica.

5. Sangramento Esofágico Refratário

  • ASGE (2026): sugere tanto o stent metálico autoexpansível totalmente coberto (SEMS) quanto o tamponamento por balão como pontes para terapia definitiva (como TIPS), variando conforme a experiência do centro.
  • Baveno VIII (2026): define o SEMS como opção preferencial em relação ao balão de tamponamento como ponte para TIPS de resgate ou transplante hepático.

6. TIPS Precoce / Pré-emptivo (pTIPS)

  • ASGE (2026): concentra a indicação de TIPS nos casos de sangramento refratário ou no manejo pós-hemostasia de varizes gástricas.
  • Baveno VIII (2026): estabelece critérios bem delimitados para pTIPS em até 72 horas (idealmente <24h) no sangramento por varizes esofágicas ou GOV1 em pacientes de alto risco. Esse grupo inclui pacientes Child-Pugh C (10–13 pontos), Child-Pugh B (>7 pontos) com sangramento ativo na EDA, ou HVPG ≥ 20 mmHg.

7. Manejo de Varizes Gástricas (GOV2 e IGV1)

Baveno VIII x ASGE: manejo das varizes gástricas
  • ASGE (2026): indica injeção guiada por ecoendoscopia (EUS-I com cianocrilato + mola) em detrimento da injeção endoscópica direta (DEI). Aceita a DEI direta caso a EUS não esteja disponível.
  • Baveno VIII (2026): estrutura o manejo em abordagem bimodal. Para o controle agudo, aceita injeção direta de cianocrilato ou terapia guiada por EUS; estabelece o TIPS (com ou sem embolização) como a terapia definitiva preferencial a ser realizada o mais breve possível.


8. Ajuste da Antibioticoprofilaxia

  • ASGE (2026): recomenda antibioticoprofilaxia ampla para pacientes cirróticos com sangramento digestivo alto.
  • Baveno VIII (2026): mantém a recomendação de cefalosporinas de 3ª geração, mas pondera que em pacientes Child-Pugh A de baixo risco o tratamento pode ser encurtado ou omitido.


Conclusão

As diretrizes da ASGE 2026 e o consenso Baveno VIII compartilham a mesma lógica geral: o sangramento varicoso agudo deve ser tratado de forma organizada, combinando ressuscitação adequada, drogas vasoativas, antibióticos e terapia endoscópica. No entanto, o Baveno VIII tende a ser mais específico em alguns cenários, especialmente na indicação de endoscopia em até 12 horas, uso de eritromicina, critérios para TIPS precoce e preferência por SEMS como ponte em sangramento esofágico refratário.

Já a ASGE adota uma abordagem mais operacional em alguns pontos, como a realização da endoscopia em até 24 horas, a recomendação contra intubação profilática de rotina, o curso mais curto de vasoativos e a preferência pela terapia guiada por ecoendoscopia nas varizes gástricas quando disponível. Portanto, conhecer as diferenças entre os documentos ajuda a adaptar a conduta ao perfil do paciente, à gravidade do sangramento e aos recursos disponíveis em cada serviço.


Referências

  1. Marya NB, Cosgrove N, Thiruvengadam NR, Nasser-Ghodsi N, Bent C, Abidi WM, et al.; ASGE Standards of Practice Committee. American Society for Gastrointestinal Endoscopy guideline on management of esophageal and gastric varices in patients with cirrhosis. Gastrointest Endosc. 2026 Sep 25. doi: 10.1016/j.gie.2026.07.026. Epub ahead of print.
  2. Berzigotti A, Mandorfer M, Pons M, Abraldes JG, Dajti E, Genesca J, et al. Baveno VIII – advancing consensus in portal hypertension. J Hepatol. 2026 Aug 19. doi: 10.1016/j.jhep.2026.07.030. Epub ahead of print.

Para saber mais sobre as mudanças no manejo da hemorragia digestiva alta varicosa, acesse esse artigo em nosso portal!

Como citar este artigo

Orso IRB. ASGE x Baveno VIII. Diferenças no manejo do sangramento varicoso. Endoscopia Terapeutica 2026 Vol II. Disponível em: https://endoscopiaterapeutica.net/pt/assuntosgerais/asge-x-baveno-viii-diferencas-no-manejo-do-sangramento-varicoso/

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Doutor em Ciências em Gastroenterologia pela USP
Especialista em Endoscopia Diagnóstica e Terapêutica da Gastroclínica Cascavel e do Hospital São Lucas FAG
Coordenador da Residência Médica em Cirurgia Geral e Professor de Gastroenterologia da Escola de Medicina da Faculdade Assis Gurgacz


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