Estenoses de cólon podem apresentar diversas etiologias, como neoplasias colorretais, compressões extrínsecas por doença metastática, estenose anastomótica pós-cirúrgica, diverticulite e Doença de Crohn.
As diretrizes de 2026 da Sociedade Americana de Endoscopia Gastrointestinal (ASGE) fornecem recomendações estruturadas para avaliação e tratamento de obstruções colônicas benignas e malignas. Essas recomendações buscam balancear a eficácia do procedimento com os possíveis eventos adversos.
Avaliação Inicial das Estenoses de Cólon
A avaliação clínica inicial deve descartar a necessidade de cirurgia de emergência, a partir da avaliação de sinais de sepse, isquemia ou perfuração. Exames de imagem como, tomografia computadorizada (TC) ou ressonância magnética (RM), apresentam papel importante na determinação da topografia e da etiologia da estenose de cólon.
- Avaliação Endoscópica: deve-se, preferencialmente, progredir o endoscópio com irrigação por água, a fim de evitar a criação de um sistema de “alça fechada” pela insuflação com CO2, o que aumenta o risco de perfuração proximal. É necessária uma documentação fotográfica cuidadosa, além da avaliação do diâmetro, do comprimento e da presença de ulceração na estenose.
- Biópsias: se houver suspeita de neoplasia ou doença inflamatória intestinal (DII), devem-se realizar aproximadamente 6 biópsias direcionadas. As biópsias devem ser estritamente evitadas no interior de divertículos devido ao alto risco de perfuração.
- Tatuagem: deve-se tatuar as lesões neoplásicas que exigirão manejo cirúrgico subsequente. As injeções devem ser aplicadas na camada submucosa, cerca de 3 a 5 cm distalmente à lesão, distribuídas em 2 a 4 quadrantes. Caso seja possível transpor a estenose com o colonoscópio, deve-se avaliar a realização de tatuagem proximal, respeitando também a mesma distância da lesão. Lesões de ceco ou reto distal não necessitam de tatuagem.
Manejo da Obstrução Colônica Maligna por CCR Potencialmente Ressecável
Para o câncer colorretal (CCR) potencialmente curável, recomenda-se a colocação de uma prótese metálica autoexpansível (SEMS) como ponte para cirurgia, em vez da cirurgia de emergência.
- Benefícios: a colocação do SEMS associou-se a aumento significativo da probabilidade de anastomose cirúrgica primária, à redução da necessidade de colostomia permanente e a menor taxa de eventos adversos pós-operatórios, além de proporcionar tempo para estadiamento pré-operatório adequado.
- Considerações: relata-se um risco potencial, ainda que sustentado por evidências fracas, de aumento da recorrência do câncer, além do risco inerente de perfuração relacionada ao SEMS.
- Tipo de Prótese: a evidência favorece a utilização de SEMSs não recobertos em relação às próteses recobertas para obstruções por CCR, uma vez que estes oferecem maior perviedade, menores taxas de migração e exigem menos reintervenções.
Manejo da Obstrução Colônica Maligna por CCR Irressecável
Em cenários paliativos em que o CCR não é passível de cura cirúrgica, sugere-se a colocação de SEMS não recoberto no lugar de uma cirurgia paliativa.
- Benefícios: a colocação de prótese reduz a necessidade de ostomias permanentes, diminui os eventos adversos e encurta as internações hospitalares, sem diferença significativa na mortalidade em 30 dias quando comparada à cirurgia.
- Cautela com o Bevacizumabe: para pacientes que recebem ou planejam receber o inibidor de VEGF bevacizumabe (medicação associada a riscos aumentados de perfuração gastrointestinal), a escolha do método de tratamento da estenose de cólon exige uma tomada de decisão compartilhada e multidisciplinar, pesando o risco de perfuração relacionada à prótese contra os riscos de complicações cirúrgicas.

Figura 1 – Passagem de prótese metálica em obstrução maligna de cólon – Imagens cedidas por Dra. Paula Botelho.
Manejo da Obstrução Colônica Maligna por Malignidade Extracolônica
As obstruções causadas por neoplasias malignas extracolônicas (por exemplo, câncer de ovário, próstata ou carcinomatose peritoneal) requerem cuidados altamente individualizados, baseados na biologia do tumor e no prognóstico do paciente.
- Eficácia: embora a colocação de SEMS seja uma alternativa viável à derivação cirúrgica para pacientes com performance status ruim, ela acarreta um risco substancialmente maior de falha técnica e clínica em comparação com os tumores intracolônicos, devido à angulação da estenose e à compressão extrínseca.
- Seleção do Tratamento: não há evidências suficientes para recomendar definitivamente as próteses em detrimento da cirurgia. Portanto, a escolha deve basear-se em avaliação multidisciplinar e no consentimento explícito do paciente, ciente das taxas de sucesso mais baixas.
Manejo das Estenoses Benignas de Cólon
Para estenoses benignas sintomáticas (por exemplo, anastomose pós-cirúrgica ou doença de Crohn em remissão), priorizam-se medidas endoscópicas conservadoras.
- Dilatação Endoscópica com Balão: é a terapia de primeira linha recomendada. Além disso, é altamente bem-sucedida, menos dispendiosa e apresenta um risco menor de eventos adversos quando comparada à colocação de próteses.
- Colocação de Prótese Metálica: os SEMSs totalmente recobertos podem ser considerados em caso de falha terapêutica da dilatação balonada, mas apresentam um alto risco de migração da prótese (até 28-31%). Os stents metálicos de aposição luminal (LAMS) são uma opção restrita a estenoses anastomóticas curtas (<15 mm), embora a migração continue sendo um problema significativo.
- Estenotomia: a estenotomia endoscópica pode ser considerada para estenoses fibróticas curtas (<3 cm), desde que haja expertise técnica disponível. Embora reduza a recorrência da estenose, acarreta um risco significativamente maior de sangramento pós-procedimento.
Considerações Finais
As próteses metálicas não recobertas são a intervenção de preferência para obstruções colônicas malignas, tanto em cenários de ponte para cirurgia quanto paliativos, embora a decisão deva ser tomada em conjunto com as demais equipes envolvidas no cuidado do paciente, levando em consideração as particularidades de cada caso.
Para estenoses de cólon de etiologia benigna, a dilatação endoscópica com balão permanece a terapia de primeira linha, com o uso de próteses metálicas e a estenotomia endoscópica servindo como intervenções alternativas viáveis para casos selecionados.
Perspectivas futuras para o tratamento endoscópico da obstrução de cólon abarcam o desenvolvimento de novos modelos de prótese, com potencial para menor taxa de migração, e a utilização de derivação colocolônica guiada por ecoendoscopia, ainda com necessidade de maior volume de estudos para avaliar sua eficácia e seu perfil de de segurança em relação às abordagens já consagradas.
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Referências
- Machicado JD, Ngamruengphong S, Ali F, Lee C, Marin-Tamayo RA, Arayakarnkul S, et al. American Society for Gastrointestinal Endoscopy guideline on endoscopic management of benign and malignant colonic strictures. Gastrointest Endosc. 2026 Aug;104(2):164-81.
- Mauro A, Scalvini D, Borgetto S, Fugazzola P, Mazza S, Perretti I, et al. Malignant acute colonic obstruction: multidisciplinary approach for endoscopic management. Cancers (Basel). 2024 Feb 18;16(4):821.
- Soota K, Rustagi T. EUS-guided colocolostomy by use of a lumen-apposing metal stent for malignant sigmoid colon obstruction. Gastrointest Endosc. 2021;94:430-1.
Como citar este artigo
Logiudice FP. Manejo das estenoses de cólon segundo o novo guideline da ASGE. Endoscopia Terapeutica 2026. Vol II; Disponível em: https://endoscopiaterapeutica.net/pt/assuntosgerais/estenoses-de-colon-guideline-asge/
Residência médica em Cirurgia Geral e Endoscopia Digestiva pelo Hospital das Clínicas da FMUSP.
Especialização em Endoscopia Digestiva Avançada pelo Hospital das Clínicas da FMUSP.
Médica assistente do serviço de Endoscopia Hospital das Clínicas da FMUSP, Hospital Paulistano, Centro Paulista de Endoscopia e São Luiz Rede D’Or Jabaquara.
