Publicado na Endoscopy em fevereiro de 2026
Autores: Gupta M, Chau M, Howarth M, Cartwright S, Ficaccio S, Tepox-Padron A, Alshammari Y, Guo H, Chen YI, Singh A, Hookey L, Arya N, Causada Calo N, Grover SC, Chatterjee A, Siersema PD, Thosani NC, Heitman SJ, Lei Y, Li S, Meng ZW, Mohamed R, Turbide C, Elmunzer BJ, Forbes N.
Introdução
A canulação do ducto pancreático é um fator de risco de pancreatite aguda pós-CPRE (1, 2). Apesar de alguns estudos mostrarem que apenas um acesso ao ducto pancreático principal (DPP) não está associado ao risco de PEP (3, 4), este achado não se replicou em outros trabalhos (1, 2). Desse modo, não se sabe o impacto real do (I) número de canulações do DPP, (II) sua profundidade e (III) acesso a ductos secundários. Assim, desenhou-se este estudo para investigar esta lacuna da literatura.
Métodos
Trata-se de um estudo prospectivo observacional, envolvendo nove centros nos Estados Unidos, Canadá e Europa. Um observador treinado era responsável por obter os dados do procedimento e do paciente. Além disso, avaliação de PEP foi realizada por investigadores cegos aos dados do procedimento.
Foram incluídos pacientes submetidos à CPRE com intervenção direcionada para a via biliar.
O uso de anti-inflamatório via retal, hiper-hidratação com ringer lactato e stents pancreáticos foi deixado a critério do médico executor do procedimento e computado entre os dados do procedimento.
Foram avaliados: número de canulações do DPP (nenhuma, uma ou múltiplas), profundidade (cabeça ou corpo/cauda) e canulação de ductos secundários.


Resultados
Foram recrutados 7430 pacientes entre 2021 e 2024. Destes pacientes, 1508 (20,3%) tiveram canulação do DPP. A taxa de PEP foi de 3,8% (282 pacientes) no total e 5,1% (217/4268 pacientes) nos submetidos à CPRE pela 1a vez.
Os resultados são subdivididos em 3 itens, com a respectiva tabela original do trabalho:
1. Canulação única do DPP e chance de PEP no total de pacientes
Fatores de risco relacionados com PEP na análise multivariada: canulação do DPP (sem diferença entre uma ou mais vezes), pacientes mais novos, sexo feminino, tempo do procedimento e número de tentativas maiores. O uso de AINE via retal e de stent pancreáticos se mostrou como fator protetor.

Tabela (artigo original): modelo de regressão identificando as associações entre variáveis do paciente e da CPRE no total de pacientes submetidos ao procedimento.
2. Canulação única do DPP e chance de PEP em pacientes submetidos à CPRE pela 1a vez
Nestes 4268 pacientes, 217 tiveram PEP (5,1%).
A canulação do DPP aumentou a chance de PEP, porém sem diferença entre uma ou mais canulações. O stent pancreático está associado a menor taxa de PEP, enquanto que o uso de AINE retal e hidratação não se mostraram como fatores protetores. Assim como na casuística total, idade menor, maior tempo de procedimento e maior número de tentativas de canulação foram fatores de risco para PEP.

Tabela (artigo original): modelo de regressão identificando as associações entre variáveis do paciente e da CPRE nos pacientes submetidos à CPRE pela 1a vez.

Figura (artigo original): relação entre o número de canulações do DPP e a chance de PEP, em comparação aos casos sem cateterização do DPP. a) todos os paciente b) Paciente realizando CPRE pela primeira vez
3. Chance de PEP segundo profundidade e canulação de ductos secundários no total de pacientes submetidos à CPRE
Tanto a progressão do fio guia restrita à cabeça, quanto até corpo/cauda estiveram associados a PEP, porém sem diferença entre eles. Além disso, a cateterização de ductos secundários não se mostrou relacionado à PEP.

Tabela (artigo original): modelo de regressão para identificar a associação entre profundidade e canulação de ductos secundários durante a CPRE no total de pacientes submetidos ao procedimento.
Discussão
A canulação do DPP sempre foi motivo de preocupação devido à sua relação com a pancreatite. Nesse sentido, este estudo buscou preencher uma lacuna na literatura sobre canulação pancreática e pancreatite pós-CPRE, envolvendo questões quantitativas (número de canulações) e qualitativas (profundidade e acesso a ductos secundários).
O primeiro resultado interessante é que apenas uma canulação do DPP já se mostrou como risco para PEP, não havendo evidente aumento de risco (de PEP) com mais acessos ao DPP. Desse modo, os autores colocam a possibilidade de um uso mais frequente de stent pancreático, mesmo apenas com um acesso ao DPP. Esta opção terapêutica é reforçada por um estudo randomizado prévio que mostrou benefício em associar o stent pancreático ao uso de AINE retal (5).
Por outro lado, a técnica do duplo fio guia não esteve associada à PEP. Possíveis explicações seriam (I) menor tempo e trauma de canulação pelo acesso mais rápido à via biliar ou (II) menor número de pacientes, não demonstrando a maior incidência de PEP. Para entusiastas da técnica, fica a mensagem de sua utilização precoce e possível associação com stent pancreático com maior frequência.
Como resultados finais, a profundidade do acesso ao DPP e a cateterização de ductos secundários não aumentaram o risco de PEP. Questões como tempo em que o fio guia permanece no DPP e calibre do fio não foram abordadas.
Portanto, trata-se de um estudo muito bem desenhado para a análise alvo, que evidenciou o aumento do risco de PEP para qualquer número de acessos ao DPP, reforçando que o uso mais frequente de stents pancreáticos pode ajudar a diminuir tal complicação.
Referências
- Fujita K, Yazumi S, Matsumoto H, Asada M, Nebiki H, Matsumoto K, et al; Bilio-pancreatic Study Group of West Japan. Multicenter prospective cohort study of adverse events associated with biliary endoscopic retrograde cholangiopancreatography: incidence of adverse events and preventive measures for post-endoscopic retrograde cholangiopancreatography pancreatitis. Dig Endosc. 2022;34(6):1198-1204.
- Nakai Y, Isayama H, Sasahira N, Kogure H, Sasaki T, Yamamoto N, et al. Risk factors for post-ERCP pancreatitis in wire-guided cannulation for therapeutic biliary ERCP. Gastrointest Endosc. 2015;81(1):119-126.
- Shin SH, So H, Cho S, Kim N, Baik GH, Lee SK, et al. The number of wire placement in the pancreatic duct and metal biliary stent as risk factors for post-endoscopic retrograde cholangiopancreatography pancreatitis. J Gastroenterol Hepatol. 2020;35(7):1201-1207.
- Goenka MK, Akshintala VS, Kamal A, Bhullar FA, Bush N, Kumar V, et al. Frequent guidewire passage into the pancreatic duct is an independent risk factor for postendoscopic retrograde cholangiopancreatography (ERCP) pancreatitis (PEP) among high-risk individuals: a post-hoc analysis of a randomized controlled trial data. J Dig Dis. 2023;24(6-7):427-433.
- Elmunzer BJ, Foster LD, Serrano J, Coté GA, Edmundowicz SA, Wani S, et al; SVI Study Group. Indomethacin with or without prophylactic pancreatic stent placement to prevent pancreatitis after ERCP: a randomised non-inferiority trial. Lancet. 2024;403(10425):450-458
Como citar este artigo
Funari MP. Number, depth, and location of inadvertent pancreatic guidewire cannulations, and their association with post-ERCP pancreatitis: multicenter real-time intra-procedural data. Endoscopia Terapeutica 2026 Vol II. Disponível em: https://endoscopiaterapeutica.net/pt/artigoscomentados/number-depth-and-location-of-inadvertent-pancreatic-guidewire-cannulations-and-their-association-with-post-ercp-pancreatitis-multicenter-real-time-intra-procedural-data/
Médico endoscopista pelo HCFMUSP
Programa de CPRE, ecoendoscopia pelo HC FMUSP
Mestre e doutor pelo HC FMUSP
Médico assistente do HC FMUSP
