O que há de novo nos critérios de cura (eCura) após a ressecção endoscópica do câncer gástrico?

Em 2026, foi publicada internacionalmente a 7ª edição do guideline de câncer gástrico da Japanese Gastric Cancer Association — JGCA.

Nesse sentido, a principal mudança ocorreu na classificação de cura após a ressecção endoscópica:

O adenocarcinoma diferenciado com invasão submucosa superficial (SM1 <500 μm) e tamanho ≤3cm, anteriormente classificado como eCuraB, passou a ser classificado como eCuraA.

Para isso, a ressecção deve ser en bloc, com margens horizontal e vertical negativas e sem invasão linfática ou vascular. Além disso, não pode haver componente indiferenciado na área de invasão submucosa.

Assim, com base em resultados de longo prazo, a JGCA reconhece a ressecção endoscópica como tratamento definitivo para essas lesões.

Como ficou o eCura no guideline de 2026?

  • eCuraA: tratamento endoscópico curativo

Inclui as ressecções en bloc, HM0, VM0, Ly0 e V0, nos seguintes cenários:

  • Diferenciado, pT1a, UL0: qualquer tamanho
  • Diferenciado, pT1a, UL1: ≤3 cm
  • Indiferenciado, pT1a, UL0: ≤2 cm
  • Diferenciado, SM1 <500 μm: ≤3 cm

  • eCuraB: categoria redefinida

Passa a ser reservada à recidiva local após uma ressecção inicialmente classificada como eCuraC-1, novamente ressecada dentro dos critérios estabelecidos, desde que a soma dos tamanhos da lesão recidivada e do espécime inicial seja ≤3 cm.

  • eCuraC-1: risco predominantemente local

Margem horizontal positiva ou ressecção não en bloc, sem outros fatores de não cura.

  • eCuraC-2: risco de doença linfonodal

Inclui margem vertical positiva (com adenocarcinoma), invasão linfovascular, invasão submucosa ≥500 μm ou critérios de tamanho, ulceração e histologia fora dos limites de cura.

Comparando os critérios de cura entre os guidelines

novos critérios eCura

Atenção à terminologia!

🇯🇵 JGCA e JGES: utilizam os termos eCuraA, eCuraB, eCuraC-1 e eCuraC-2.

🇪🇺 ESGE: não utiliza as letras do sistema eCura; classifica o resultado conforme o risco (muito baixo, baixo e alto).

🇺🇸 ASGE: utiliza principalmente os conceitos de ressecção curativa e não curativa, sem diferenciar todas as categorias.

Quer saber como as recomendações europeias se comparam aos novos critérios eCura da JGCA? Acesse MAPS III (ESGE 2025): Novas Recomendações para Lesões Gástricas.

Referências

  1. Japanese Gastric Cancer Association. Japanese gastric cancer treatment guidelines 2025 (7th edition). Gastric Cancer. 2026;29(2):271-299.
  2. Japanese Gastric Cancer Association. Japanese gastric cancer treatment guidelines 2021 (6th edition). Gastric Cancer. 2023;26(1):1-25.
  3. Ono H, Yao K, Fujishiro M, Oda I, Nimura S, Yahagi N, et al. Guidelines for endoscopic submucosal dissection and endoscopic mucosal resection for early gastric cancer (second edition). Dig Endosc. 2021;33(1):4-20.
  4. Dinis-Ribeiro M, Libânio D, Uchima H, et al. Management of epithelial precancerous conditions and early neoplasia of the stomach (MAPS III): European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE), European Helicobacter and Microbiota Study Group (EHMSG) and European Society of Pathology (ESP) Guideline update 2025. Endoscopy. 2025;57:504-554.
  5. Forbes N, Elhanafi SE, Al-Haddad MA, Thosani NC, Mullady DK, Small AJ, et al. American Society for Gastrointestinal Endoscopy guideline on endoscopic submucosal dissection for the management of early esophageal and gastric cancers: summary and recommendations. Gastrointest Endosc. 2023;98(3):271-284.

Como citar este artigo

Nobre R. O que há de novo nos critérios de cura (eCura) após a ressecção endoscópica do câncer gástrico? Endoscopia Terapeutica 2026 Vol II. Disponível em: https://endoscopiaterapeutica.net/pt/assuntosgerais/novos-criterios-ecura-jgca/




Quiz !! Vamos praticar o eCURA ?

VAMOS PRATICAR O eCURA?

 

Escolha a alternativa que melhor assinala a indicação de ressecção endoscópica, o critério de cura e a conduta

 

Lesão planodelevada com componente deprimido (Paris IIa+IIc), localizada na parede anterior do antro. Bx: neoplasia intraepitelial com displasia de alto grau.

Submetida a ESD, AP da peça: adenocarcinoma intramucoso microtubular e com área contendo células em anel de sinete, medindo 18mm, invadindo até a lâmina própria, sem invasão angiolinfática, margens livres.

 

 

 




Você sabe quais são os critérios de indicação de ressecção endoscópica do câncer gástrico precoce e os critérios de cura (eCura)?

A Sociedade Japonesa de Endoscopia (JGES) publicou em 2021(1) um guideline atualizado de Mucosectomia e Dissecção Endoscópica da Submucosa (ESD) para câncer gástrico precoce.

Em relação às recomendações de 2016(2), os critérios expandidos foram considerados absolutos na atual edição. Persistem como critérios expandidos somente as lesões recidivadas. Algumas lesões que antes eram contraindicadas à ressecção endoscópica foram alocadas nas indicações relativas.

Avaliação pré-operatória

Importante ressaltar que, no estômago, a avaliação endoscópica pré-operatória nem sempre consegue predizer com acurácia a profundidade de invasão (diferente do cólon e esôfago, onde temos classificações que guiam a conduta). Achados endoscópicos que sugerem invasão da submucosa:

  • hipertrofia ou convergência de pregas,
  • tamanho do tumor >3cm,
  • lesões muito avermelhadas,
  • superfície irregular,
  • elevação das margens,
  • sinal da não extensão (quando a mucosa gástrica é expandida pela insuflação, as lesões com invasão maciça da submucosa não se estendem e formam uma elevação trapezoide, além disso, as pregas convergem e se tornam elevadas).

Em alguns casos, quando há dificuldade nesta informação, a Ecoendoscopia pode ser ferramenta útil.

Em geral, a ressecção endoscópica deve ser realizada quando o risco de metástase linfonodal é extremamente baixo e os resultados a longo prazo são semelhantes aos da cirurgia. Além disso, o tamanho e a localização devem permitir a ressecção em bloco.

Para determinar se uma lesão gástrica é passível de ressecção endoscópica curativa, devemos avaliar:

  1. tipo histológico
  2. tamanho
  3. profundidade de invasão
  4. presença ou não de ulceração.

Indicações

Segundo o Guideline de 2021 da JGES, podemos dividir as indicações de ressecção endoscópica do câncer gástrico precoce em:

  • Absolutas: quando o risco de metástase linfonodal é <1% e os resultados da ressecção endoscópica se mostraram semelhantes aos da cirurgia.
  • Relativas: quando a lesão não preenche os critérios absolutos, mas nos casos em que a cirurgia é arriscada ou para obter uma avaliação histopatológica acurada.
  • Expandidas: lesões intramucosas recidivadas após ressecção endoscópica eCura C1

O quadro abaixo resume os critérios de indicação (tabela 1):

Tabela 1: Indicações de ESD

Critérios de cura:

Já os critérios de cura são divididos em:

eCuraA (ressecção curativa):

  • A ressecção endoscópica é igual ou superior à cirúrgica em desfechos a longo termo. É indicado seguimento a cada 6-12 meses.

eCuraB:

  • Apesar de estudos com resultados de longo prazo ainda não terem sido publicados, a cura é esperada. Estão incluídas nesses grupos lesões diferenciadas, ≤ 3 cm, SM1 (invasão até 500 micras). É indicado seguimento a cada 6-12 meses com EDA + CT.

 eCuraC:

  • quando a lesão não preenche os critérios acima. Pode ser dividida em:
  • C-1: quando a lesão é diferenciada mas não foi ressecada em bloco ou teve margens horizontais positivas. Nesse caso, o risco de metástase é baixo. Pode-se observar, repetir a ESD, fazer ablação ou operar.
  • C-2: todas as outras lesões que não preencheram os critérios. Na maioria destes casos, é indicada cirurgia devido ao potencial risco de recorrência e metástases.

DESCOMPLICANDO….

Indicações absolutas = tumores intramucosos (T1a)

  • Diferenciados sem ulceração: qualquer tamanho
  • Diferenciados com ulceração: <3cm
  • Indiferenciados sem ulceração: <2cm

Critérios de cura:

  • eCuraA = critérios absolutos + margens negativas, ausência de invasão angiolinfática à seguimento
  • eCuraB = T1b (SM1), diferenciado, <3cm, margens negativas, ausência de invasão angiolinfática à seguimento
  • eCuraC-1 = piecemeal ou margens horizontais positivas à seguimento
  • eCura C-2 = quando não preenchem os critérios acima à cirurgia

A tabela 2 e o algorítimo 1 sedimentam os critérios de eCura e seguimento pós ESD:

Tabela 2 : Resumos dos critérios de eCura

Algorítimo de seguimento

Para saber mais sobre este tema, acesse o site Gastropedia clicando aqui!

Como citar esse artigo:

Moura RN. Você sabe quais os critérios de indicação e cura do ESD gástrico (eCura)? Endoscopia Terapêutica; 2022.  Disponível em: endoscopiaterapeutica.net/pt/assuntosgerais/criterios-esd-gastrico-ecura

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Ono H, Yao K, Fujishiro M, et al. Guidelines for endoscopic submucosal dissection and endoscopic mucosal resection for early gastric cancer (second edition). Dig Endosc. 2021 Jan;33(1):4-20.
  2. Ono H, Yao K, Fujishiro M et al. Guidelines for endoscopic submucosal dissection and endoscopic mucosal resection for early gastric cancer. Dig Endosc 2016; 28: 3–15.

Saiba mais sobre ESD:

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