Manejo de estenose biliar: guideline ESGE 2026
1. Introdução
A Sociedade Europeia de Endoscopia Digestiva (ESGE) publicou em setembro de 2026 seu novo guideline abordando o manejo de estenose biliar (1). Este guideline é uma atualização do guideline de 2018 de próteses biliares (2) e uma complementação e refinamento do guideline de 2022 de ecoendoscopia terapêutica (3). O objetivo deste artigo é apresentar de forma sucinta e direta as principais recomendações, enfatizar o que mudou em relação aos guidelines anteriores, além de comentar e contextualizar as recomendações na nossa realidade. Assim, seguiremos a divisão em quatro grandes grupos, conforme apresentados no guideline: estenose biliar benigna; estenose biliar maligna; estenose biliar em pacientes com anatomia alterada; manejo após falha da CPRE. Utilizaremos as siglas em inglês para facilitar a compreensão do texto original.
2. Recomendações
2.I. Estenose biliar benigna
- Estenose pós-colecistectomia: múltiplas próteses plásticas ou prótese metálica totalmente recoberta (Fully Covered Self-Expandable Metal Stent – FCSEMS), se a estenose estiver localizada a >2cm da confluência biliar
- Estenose de anastomose pós-transplante hepático: múltiplas próteses plásticas ou FCSEMS, se a estenose estiver localizada a >2cm da confluência biliar
- O que mudou (guideline 2018): múltiplas próteses plásticas eram única opção de 1ª linha
- Estenose não-anastomótica pós-transplante hepático: múltiplas próteses plásticas
- Estenose de maior complexidade com frequente acometimento da confluência biliar
- Estenose de alto grau (redução ≥ 75% do calibre) em Colangite Esclerosante Primária (CEP): dilatação com balão SEM prótese
- O que mudou (guideline 2018): dilatação com balão ou prótese eram opções de primeira linha. A prótese não demonstrou benefício e aumentou o risco de colangite
- Observações: descartar malignidade; se utilizar prótese, retirar em até 2 semanas; FCSEMS em casos refratários pode ser uma opção
- Estenose por pancreatite crônica: FCSEMS por 6 a 12 meses. Múltiplas próteses plásticas são uma opção aceitável se FCSEMS indisponível.
- O que mudou (guideline 2018): FCSEMS ou múltiplas próteses plásticas eram opção de 1ª linha
- Estenose distal de etiologia indefinida: evitar prótese biliar metálica não recoberta (Uncovered Self-Expandable Metal Stent – USEMS)
- Dificulta a investigação etiológica posteriormente (escovado, biópsias por CPRE, biópsias por colangioscopia)
2.II. Estenose biliar maligna
2.II.A. Estenose biliar maligna distal
- Drenagem pré-operatória: pacientes com colangite, colestase severa sintomática (prurido intenso), indicação de quimioterapia neoadjuvante ou cirurgia programada para após 2 semanas
- Prótese biliar metálica (Self-Expandable Metal Stent – SEMS) de 10mm
- Drenagem pré-operatória pode ser evitada se cirurgia planejada em 1-2 semanas
- Drenagem paliativa: drenagem endoscópica é 1ª linha – preferida contra abordagem percutânea ou cirúrgica
- Drenagem por CPRE (Endoscopic Retrograde Cholangiopancreatography – ERCP) é a 1ª escolha. Drenagem por ecoendoscopia ( EUS-guided Biliary Drainage – EUS-BD*) pode ser uma alternativa em casos específicos, em centros de referência.
- Prótese biliar metálica parcialmente recoberta (Partially Covered Self-Expandable Metal Stent – PCSEMS) é a preferência, mas qualquer SEMS é uma opção aceitável.
*Nota: utiliza-se o termo EUS-BD para englobar as diferentes técnicas de drenagem ecoguiada: drenagem anterógrada, drenagem coledocoduodenal, drenagem hepatogástrica/hepaticojejunal.
- Papila inacessível ou falha da CPRE: EUS-BD preferível à drenagem percutânea (Percutaneous Transhepatic Biliary Drainage – PTBD). PTBD se falha na EUS-BD.
- Sem obstrução duodenal: drenagem hepatogástrica ( EUS-guided Hepaticogastrostomy – EUS-HGS) ou coledocoduodenal ( EUS-guided Choledochoduodenostomy – EUS-CDS)
- Com obstrução duodenal: drenagem hepatogástrica (EUS-HGS)
2.II.B. Estenose biliar maligna hilar
- Drenagem biliar de estenose maligna hilar deve ser realizada em centro de referência com envolvimento de equipe multidisciplinar
- Não se deve realizar drenagem pré-operatória de rotina. A indicação deve ser discutida por equipe multidisciplinar considerando características da lesão, do paciente e da expertise local
- Se indicada, recomenda-se drenagem por CPRE como 1ª opção, preferível à PTBD
- Drenagem paliativa
- Bismuth I e II: CPRE
- Bismuth III e IV: CPRE +/- EUS-BD. Pode ser necessária complementação com PTBD em alguns casos
- O que mudou (guideline 2018): drenagem por PTBD era 1ª opção em Bismuth III e IV
- Objetivo de drenagem: >50%, preferencialmente 70%, de parênquima viável não atrófico
- O que mudou (guideline 2018): drenagem ≥50%, não havia citação explícita sobre drenagem de parênquima viável
- Prótese: USEMS ou plásticas – preferir plásticas se a estratégia ótima de drenagem ainda não tiver sido definida e USEMS, em centro de referência, após a estratégia ótima de drenagem ter sido definida
- O que mudou (guideline 2018): USEMS era única opção de 1ª linha
2.III. Drenagem biliar em anatomia cirurgicamente alterada
- Billroth II: CPRE com duodenoscópio ou aparelho de visão frontal
- Técnicas ecoguiadas podem ser utilizadas quando houver falha na CPRE
- Duodenopancreatectomia: considerar CPRE por enteroscopia ( Enteroscopy-assisted ERCP – EA-ERCP), EUS-BD e PTBD devem ser consideradas
- Etiologia benigna: EA-ERCP é primeira escolha
- Etiologia maligna: EA-ERCP ou EUS-BD de acordo com características anatômicas e expertise local. PTBD é opção de 2ª linha.
- Gastroplastia redutora com reconstrução em Y de Roux (“Bypass” gástrico):
considerar EA-ERCP, EUS-BD e CPRE transgástrica dirigida por ecoendoscopia (EDGE)- Etiologia benigna: EDGE é 1ª opção
- Etiologia maligna: EUS-BD é 1ª opção. EDGE, EA-ERCP e PTBD são opções possíveis
- Gastrectomia (total ou parcial) com reconstrução em Y de Roux: EA-ERCP, EUS-BD e PTBD devem ser considerados
- Etiologia benigna: EA-ERCP é a 1ª escolha
- Etiologia maligna: EUS-BD ou PTBD são opções de 1ª escolha
- Hepaticojejunostomia em Y de Roux: drenagem endoscópica é preferível à drenagem percutânea, que pode ser realizada como 2ª linha.
- Etiologia benigna: EA-ERCP ou EUS-BD são opções de 1ª linha
- Etiologia maligna: EUS-BD é 1ª escolha
2.IV. Outras situações especiais
- Falha na CPRE com acesso à papila – etiologia benigna
- Tentar 2ª CPRE, preferencialmente em centro de referência
- Se nova falha: Rendezvous ecoguiado (EUS-RV)
- O que mudou (guideline 2018): Rendezvous por eco ou percutânea eram opções de 1ª linha
- Falha na CPRE com acesso à papila – etiologia maligna sem estenose duodenal
- EUS-BD preferível à PTBD
- Falha na CPRE com acesso à papila – etiologia maligna com estenose duodenal
- EUS-BD é preferível à cirurgia biliodigestiva e à PTBD
- EUS-HGS apresenta menor risco de recorrência da obstrução biliar comparada à EUS-CDS
- O que mudou (guideline 2018): reservava-se a EUS-HGS apenas a casos inoperáveis após falha de CPRE e insuficiência da PTBD
- Drenagem ecoguiada da vesícula biliar: alternativa de resgate em diferentes cenários quando o ducto cístico está patente

3. Comentários
O novo guideline da ESGE traz recomendações para diversos cenários nos quais a drenagem biliar é necessária em um escopo bastante amplo. Em relação aos guidelines anteriores, nota-se um aumento significativo do protagonismo das drenagens ecoguiadas em diversas situações, com a drenagem percutânea perdendo muito espaço como 1ª opção e se tornando técnica de resgate ou de 2ª linha na maioria dos casos. O desenvolvimento de acessórios dedicados e a expertise adquirida nos últimos anos justificam essa mudança de paradigma. Entretanto, é importante ressaltar que essa ainda não é a realidade na grande maioria dos serviços brasileiros – onde os materiais dedicados ainda são escassos e a expertise é limitada a poucos centros. Portanto, para a nossa realidade, a drenagem percutânea segue tendo um papel importante, especialmente em casos de falha da CPRE ou de anatomia alterada.
A ecoendoscopia terapêutica ganhou muito espaço nos últimos anos. Contudo, é importante ressaltar que a drenagem ecoguiada transmural em pacientes candidatos a cirurgia deve sempre ser discutida com uma equipe multidisciplinar, preferencialmente incluindo cirurgião e oncologista. Outro ponto interessante a ser observado é que a qualidade da evidência da maioria das recomendações é baixa ou muito baixa, demonstrando escassez de estudos prospectivos comparativos de alta qualidade sobre muitos dos temas abordados.
4. Conclusão
O novo guideline da ESGE confirma a ascensão da drenagem biliar ecoguiada no manejo das estenoses biliares em diversos cenários, colocando a drenagem percutânea como opção de resgate ou segunda linha na maioria dos casos. Desse modo, cabe a cada serviço avaliar sua própria expertise e disponibilidade de recursos humanos e materiais antes de extrapolar essas recomendações para a prática diária, sempre observando a importância da equipe médica multidisciplinar na tomada de decisões em casos complexos.
Quer se aprofundar sobre o uso da EUS-BD (coledocoduodenal) como alternativa à CPRE nas obstruções distais malignas? Acesse!
Referências
- Lemmers A, Tringali A, Teles de Campos S, Vanella G, Liem KS, Arvanitakis M, Caillol F, Gerges C, Johnson G, Kylänpää L, Perez-Cuadrado Robles E, Petrone MC, Ramchandani M, van Hooft JE, Facciorusso A, Tham TC, Triantafyllou K. Biliary stricture management: European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE) Guideline. Endoscopy. 2026 Sep 3. doi: 10.1055/a-2921-6492. Epub ahead of print. PMID: 42692059.
- Dumonceau JM, Tringali A, Papanikolaou IS et al. Endoscopic biliary stenting: indications, choice of stents, and results: European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE) Clinical Guideline– Updated October 2017. Endoscopy 2018; 50: 910–930 doi:10.1055/a-0659-9864
- van der Merwe SW, van Wanrooij RLJ, Bronswijk M et al. Therapeutic endoscopic ultrasound: European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE) Guideline. Endoscopy 2022; 54: 185–205 doi:10.1055/ a-1717-1391
Como citar este artigo
Proença IM. Manejo de estenose biliar: guideline ESGE 2026. Endoscopia Terapeutica 2026 Vol II. Disponível em: https://endoscopiaterapeutica.net/pt/assuntosgerais/manejo-de-estenose-biliar-guideline-esge-2026/























