Pancreatectomia Central Robótica Guiada por Pancreatoscopia Intraoperatória em IPMN de Ducto Principal

Autores: William Marchelli Vilela Costa, Gabrieli Melissa Oissa , Gustavo Ferreira Araruna, Sebastian Naschold Geiger, Jaime Arthur Pirola Kruger

Introdução

A neoplasia papilar mucinosa intraductal (IPMN) de ducto principal apresenta um risco significativo de malignização, exigindo ressecção cirúrgica na presença de estigmas de alto risco.

Para lesões restritas ao segmento médio do pâncreas, a pancreatectomia central surge como uma alternativa poupadora de parênquima, associando preservação funcional e controle oncológico. No entanto, o grande desafio dessa técnica é o risco de multifocalidade e o subdimensionamento da extensão da lesão pelos exames de imagem convencionais. Nesse cenário, a pancreatoscopia intraoperatória torna-se uma ferramenta valiosa, permitindo a avaliação visual direta da mucosa ductal e das margens de ressecção.

Relato do Caso

Paciente feminina, 45 anos, com quadro de dor epigástrica intermitente. A investigação por tomografia computadorizada contrastada evidenciou dilatação difusa do ducto pancreático principal, iniciando-se próximo à junção pancreatobiliar e estendendo-se à porção central. Os marcadores tumorais (CEA e CA 19-9) encontravam-se dentro da normalidade. Desse modo, diante do desejo de preservação funcional e da localização centrada na porção média do pâncreas, optou-se pela abordagem cirúrgica minimamente invasiva.

Foi realizada uma pancreatectomia central robótica (plataforma da Vinci) associada à linfadenectomia regional.

Após a passagem dos trocartes laparoscópicos, foi introduzido o duodenoscópio por via oral até a segunda porção duodenal, seguido da canulação do ducto pancreático principal (DPP) com passagem do fio guia e confirmação do posicionamento do fio guia através do ultrassom laparoscópico. Em seguida, foi realizada a papilotomia tática, seguida da introdução do pancreatoscópio. Na topografia do corpo pancreático foram identificadas lesões intraductais do tipo “ovas de peixe”; a transição para a mucosa normal pôde ser identificada nitidamente, caracterizada pelo desaparecimento das irregularidades e pelo retorno ao aspecto liso e brilhante habitual do ducto.

Nesse sentido, a realização da pancreatoscopia intraoperatória permitiu à equipe cirúrgica demarcar as margens da lesão com precisão, poupando desta forma as porções cefálica e caudal. As margens cirúrgicas foram submetidas a estudo anatomopatológico intraoperatório por congelação, que confirmou a ausência de atipias celulares ou displasia de alto grau (margens livres). A reconstrução foi realizada por meio de uma pancreatojejunostomia em Y de Roux no remanescente pancreático distal.

Discussão

A escolha da pancreatectomia central no IPMN de ducto principal exige extrema cautela devido à natureza difusa ou multifocal da doença. Estudos atuais demonstram que a pancreatoscopia intraoperatória detecta lesões adicionais em 20-40% dos casos, altera o plano cirúrgico em aproximadamente 30-37% dos pacientes, levando a ressecções estendidas ou procedimentos poupadores de parênquima.

Além disso, quando combinada à análise por congelação, atinge 86% de sensibilidade e 92% de especificidade para detecção de tecido patológico no pâncreas remanescente.

No entanto, apesar dos resultados promissores, o método apresenta algumas limitações, como disponibilidade restrita, curva de aprendizado, heterogeneidade de técnicas entre os grandes centros e falta de estudos prospectivos robustos que avaliem o impacto em recorrências e sobrevida.

No caso relatado, a pancreatoscopia foi decisiva para a indicação da pancreatectomia central. O mapeamento endoscópico dos limites da lesão comprovou a ausência de acometimento da porção cefálica, apesar da dilatação ductal. Além disso, demonstrou transição nítida para mucosa normal antes da junção corpo-caudal. Assim, foi possível evitar a conversão para uma pancreatectomia subtotal ou total, preservando a qualidade de vida a longo prazo da paciente jovem.

Conclusão

A pancreatectomia central robótica associada à pancreatoscopia intraoperatória é uma estratégia viável em paciente selecionada com IPMN de ducto principal localizado na porção média do pâncreas, permitindo preservação parenquimatosa, avaliação direta das margens ductais e tomada de decisão intraoperatória mais precisa.

Para saber mais sobre o papel da pancreatoscopia no manejo do IPMN, acesse a revisão de Abusharar et al. (2026).

Referências

  1. Abusharar M, Barritt C, Mavroeidis VK, Aroori S. Role of pancreatoscopy in the management of suspected and confirmed intraductal papillary mucinous neoplasm of the pancreas. World J Gastroenterol. 2026;32(4):112635.
  2. Ciprani D, Frampton A, Amar H, Oppong K, Pandanaboyana S, Aroori S. The role of intraoperative pancreatoscopy in the surgical management of intraductal papillary mucinous neoplasms of the pancreas: a systematic scoping review. Surg Endosc. 2023;37(12):9043-51.
  3. Grewal M, Habib JR, Paluszek O, Cohen SM, Wolfgang CL, Javed AA. The role of intraoperative pancreatoscopy in the surgical management of intraductal papillary mucinous neoplasms: a scoping review. Pancreas. 2024;53(3):e280-7.
  4. Arnelo U, Valente R, Scandavini CM, Halimi A, Mucelli RMP, Rangelova E, et al. Intraoperative pancreatoscopy can improve the detection of skip lesions during surgery for intraductal papillary mucinous neoplasia: a pilot study. Pancreatology. 2023;23(6):704-11.

Como citar este artigo

Costa WMV, Oissa GM, Araruna GF, Geiger SN, Kruger JAP. Pancreatectomia Central Robótica Guiada por Pancreatoscopia Intraoperatória em IPMN de Ducto Principal. Endoscopia Terapeutica, 2026 Vol II. Disponível em: https://endoscopiaterapeutica.net/pt/casosclinicos/pancreatoscopia-intraoperatoria-pancreatectomia-central-ipmn/