Paciente feminina, 35 anos, assintomática. Tomografia computadorizada de abdome realizada para avaliação de hérnia hiatal evidenciou lesão ovalada hipoatenuante em corpo/cauda do pâncreas medindo 3,2 x 2,2 cm, com calcificação central e vascularização intralesional, no contexto de pancreatite aguda corpo-caudal. Ducto pancreático e colédoco não dilatados.
Solicitada ecoendoscopia com punção (EUS-FNB) para caracterização histológica.
Achados à ecoendoscopia: lesão heterogênea, bem delimitada, medindo 28,36 x 22,70 mm, com cisto intramural, e vascularização intralesional ao Doppler, localizada em corpo/cauda pancreáticos. Ausência de dilatação do ducto pancreático principal.
Ablação por Radiofrequência Guiada por EUS em Lesões Pancreáticas: Indicações e Evidências na Prática Clínica
A ablação por radiofrequência guiada por ultrassonografia endoscópica (EUS-RFA) tem se consolidado como uma alternativa minimamente invasiva no manejo de lesões pancreáticas selecionadas. A técnica combina a alta precisão da ecoendoscopia com o efeito térmico da radiofrequência, permitindo necrose tecidual controlada com preservação do parênquima adjacente.
O que é a EUS-RFA?
A EUS-RFA consiste na introdução de uma sonda de radiofrequência acoplada a uma agulha guiada por ultrassom endoscópico, possibilitando a aplicação direta de energia térmica na lesão-alvo.
•Geração de calor por corrente de radiofrequência •Aumento da temperatura tecidual •Coagulação proteica e necrose celular •Indução de resposta inflamatória local •Possível efeito imunomodulador sistêmico
Estudos sugerem que a ablação pode modular a resposta imune tumoral, aspecto de interesse crescente em oncologia pancreática.
Indicações Clínicas da EUS-RFA
A aplicação clínica da EUS-RFA concentra-se em três cenários principais:
Tumores Neuroendócrinos Pancreáticos (PanNETs)
A principal indicação atual envolve PanNETs bem diferenciados:
Critérios mais aceitos:
•Lesões ≤ 2 cm •Grau 1 (Classificação histopatológica da World Health Organization– WHO) •Pacientes com alto risco cirúrgico ou que desejam evitar ressecção •Tumores funcionantes, especialmente insulinomas
A EUS-RFA tem se mostrado particularmente eficaz em insulinomas, com potencial de se tornar alternativa padrão à cirurgia em casos selecionados.
Evidências clínicas (Barthet et al., 2019 e 2021):
•Taxa de resposta completa: 85–100% •Baixa recorrência •Perfil de segurança favorável
Lesões Císticas Pancreáticas (PCLs)
A EUS-RFA surge como alternativa minimante invasiva em casos selecionados, especialmente em pacientes com contraindicação cirúrgica, alto risco operatório ou recusa de tratamento cirúrgico. Atualmente sua aplicação permanece em evolução e preferencialmente discutida em contexto multidisciplinar.
Possíveis cenários descritos na literatura:
•IPMN de ramos secundários com critérios preocupantes (Worrisome features) •Lesões císticas ≥ 3 cm •Parede espessada ou nódulo mural •Pacientes inoperáveis ou com alto risco cirúrgico
Resultados clínicos (Barthet et al., 2019):
•Resolução completa em até 65% em 12 meses •Redução >50% do volume cístico em 71% dos casos •Complicações maiores <10%
Adenocarcinoma Ductal Pancreático (PDCA)
Embora ainda em caráter investigacional, a EUS-RFA vem sendo estuda como estratégia complementar no manejo do adenocarcinoma ductal pancreático.
Possíveis cenários de aplicações:
•Doença localmente avançada irressecável •Pacientes não candidatos à cirurgia •Terapia combinada com quimioterapia e/ou radioterapia •Controle paliativo de sintomas •Redução tumoral com potencial conversão para ressecabilidade em casos selecionados
Os dados disponíveis sugerem segurança aceitável, com eventos adversos predominantemente leves, entretanto ainda não está estabelecido como terapia padrão, sendo necessário mais estudos prospectivos e ensaios clínicos randomizados para melhor definição de impacto em sobrevida, controle local e qualidade de vida.
Segurança e Complicações
A EUS-RFA apresenta perfil de segurança favorável quando realizada por equipes experientes.
Estratégias para redução de complicações (Barthet et al., 2019)
•Controle rigoroso da temperatura do eletrodo •Uso de sistemas de resfriamento interno •Anti-inflamatórios por via retal •Antibióticos profiláticos em lesões císticas •Distância segura do ducto pancreático principal (idealmente > 2mm)
Perspectivas Futuras
EUS-RFA está em rápida evolução e tende a ampliar seu papel no manejo minimamente invasivo das lesões pancreáticas selecionadas, especialmente em PanNETs pequenos, lesões císticas mucinosas e, potencialmente, no adenocarcinoma pancreático localmente avançado em estratégias multimodais.
Conclusão
A EUS-RFA representa uma estratégia terapêutica minimamente invasiva promissora. Apesar dos resultados encorajadores e do perfil de segurança favorável, sua incorporação definitiva na prática clínica ainda depende de maior padronização técnica, definição dos critérios ideais de indicação, além de estudos prospectivos e ensaios clínicos randomizados com seguimento a longo prazo. Com o avanço das evidências e refinamento técnico, a tendência é de maior incorporação na prática clínica especializada.
Referências
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Larghi A, Rizzatti G, Rimbaş M, et al. Endoscopic ultrasound-guided radiofrequency ablation for pancreatic neuroendocrine neoplasms. Endosc Ultrasound. 2019.
Barthet M, Giovannini M, Lesavre N, et al. EUS-guided RFA for pancreatic neuroendocrine tumors and cystic neoplasms. Endoscopy. 2019.
Barthet M, Giovannini M, Gasmi M, et al. Long-term outcomes after EUS-RFA. Endosc Int Open. 2021
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