Tratamento do sobrepeso com balão intragástrico (experiência de 13 anos de três centros na Europa)
Estudo retrospectivo realizado por três centros da Europa, para avaliação dos benefícios do tratamento com balão intragástrico em paciente com sobrepeso (IMC 27-30) e alguma comorbidade associada.
O objetivo do estudo foi avaliar a eficácia do balão na perda de peso e controle das comorbidades logo após a retirada do mesmo e três anos depois do tratamento.
O período de análise foi de 1996 até 2010, e os pacientes foram selecionados através dos seguintes critérios:
IMC entre 27 e 30 em pacientes com insucesso clínico em tratamentos para emagrecimento associado a pelos menos uma das comorbidades:
- Hipertensão (PA> 140/90)
- Diabetes (Glicemia de jejum maior que 120 ou HbA1c >9%)
- Osteoartropatia (redução importante de realizar atividade física)
- Dislipidemia (LDL > 250 ou Triglicerídeos >250)
O procedimento endoscópico realizado foi a colocação de balão intragástrico não ajustável, com solução salina e azul de metileno em volumes fixos (média de 548ml). O balão foi mantido por um período de 6 meses.
Dos três centros localizado em Roma (Itália) , Liége (Bélgica) e Madri (Espanha) foram selecionados 261 pacientes, sendo destes 73 entre 1996-2000, 25 entre 2001-2003 e 163 entre 2004-2010. A média de idade foi de 38 anos (+/- 3), peso inicial de 80,5 kg (+/- 11), excesso de peso inicial 19,8 kg (+/-11) e o IMC inicial de 28,6 (+/- 0,4).
Resultados
Os resultados na retirada do balão após 6 meses:
- Perda de peso total: 9,2 kg (+/- 7,2)
- IMC: 25,4 (+/- 2,6)
- Porcentagem do excesso de peso perdido: 55,6 %
- Porcentagem da redução do IMC: 11,5 (+/- 9,0)
No controle após 3 anos da retirada do balão os resultados foram:
- Perda de peso total: 5,1 kg (+/- 8,7)
- IMC: 27 (+/- 3,1)
- Porcentagem do excesso de peso perdido: 29,1 %
- Porcentagem da redução do IMC: 6,1 (+/- 10,4)
No acompanhamento pós retiradas do balão, 172 pacientes (66%), seguiram acompanhamento nutricional, sendo que destes 132 (77%) fizeram de uma a 3 dietas, 17 (10%) fizeram de 4 a 6 dietas e 20 (12%) fizeram mais do que 6 dietas.
Controle das comorbidades
Comorbidade | Antes do balão | Na retirada | Após 3 anos da retirada |
Hipertensão | 75 | 36 | 42 |
Diabetes | 39 | 22 | 27 |
Osteoartropatia | 66 | 30 | 35 |
Dislipidemia | 84 | 54 | 55 |
Nota: número de pacientes conforme os critérios citados
Complicações
Dos 261 pacientes, 28 tiveram vazamento do balão sendo que destes 26 foram em procedimentos realizados antes de 2001. A intolerância e consequente retirada do balão aconteceu em 15 pacientes. Complicações clínicas foram úlcera duodenal (2 pacientes), gastrite (1 paciente), esofagite (1 paciente) e pólipos duodenais (1 paciente).
DISCUSSÃO
Os resultados mostram que o tratamento do sobrepeso com balão intragástrico é seguro e eficaz, na redução de peso e na diminuição das comorbidades. Ressalta-se que os pacientes que mantiveram acompanhamento multidisciplinar, especialmente da parte nutricional, pelo período de 3 anos conseguiram sustentar cerca de 50% do peso perdido na retirado do balão, contrariando alguns estudos que mostram taxas de mais de 90% de reganho de peso após a retirada do mesmo.
Porém deve-se levar em conta o custo-benefício desta abordagem tendo em visto que as necessidades de perda de peso neste subgrupo de pacientes não são tão grandes e provavelmente podem ser atingidas com tratamento clínico multidisciplinar sem a colocação do balão.
O estudo possui falhas por ser retrospectivo, reune pacientes de três centros diferentes sem protocolos uniformes e não possui um grupo controle que poderia ser feito com pacientes seguindo as mesmas orientações clinicas e nutricionais mas sem a presença do balão intragástrico. Além disto o período de seleção dos pacientes foi muito longo variando entre 1996 -2010 (percebe-se que quase todas as complicações de vazamento do balão ocorreram antes de 2001) o que podemos atribuir ao uso de próteses não similares, ou que os novos modelos de balão foram aprimorados e possuem tecnologia que impedem estes vazamentos.
Mas apesar das falhas do estudo, este tem uma grande casuística baseada em dados concretos do dia-a-dia de cada centro e que devem ser valorizados.
No momento atual onde não temos disponível no mercado nenhuma terapêutica farmacológica eficaz, em um subgrupo de pacientes que tentou inúmeras vezes tratamento clinico para emagrecimento sem sucesso, talvez o tratamento com balão intragástrico seja uma alternativa, principalmente naqueles que já possuem alguma comorbidade relacionada a este sobrepeso.
Link para o artigo original:
Genco A, López-Nava G, Wahlen C, Maselli R, Cipriano M, Sanchez MM, Jacobs C, Lorenzo M.
Obes Surg. 2013 Apr;23(4):515-21. doi: 10.1007/s11695-012-0829-3.