Ablação por Radiofrequência Guiada por EUS em Lesões Pancreáticas: Indicações e Evidências na Prática Clínica
A ablação por radiofrequência guiada por ultrassonografia endoscópica (EUS-RFA) tem se consolidado como uma alternativa minimamente invasiva no manejo de lesões pancreáticas selecionadas. A técnica combina a alta precisão da ecoendoscopia com o efeito térmico da radiofrequência, permitindo necrose tecidual controlada com preservação do parênquima adjacente.
O que é a EUS-RFA?
A EUS-RFA consiste na introdução de uma sonda de radiofrequência acoplada a uma agulha guiada por ultrassom endoscópico, possibilitando a aplicação direta de energia térmica na lesão-alvo.
•Geração de calor por corrente de radiofrequência •Aumento da temperatura tecidual •Coagulação proteica e necrose celular •Indução de resposta inflamatória local •Possível efeito imunomodulador sistêmico
Estudos sugerem que a ablação pode modular a resposta imune tumoral, aspecto de interesse crescente em oncologia pancreática.
Indicações Clínicas da EUS-RFA
A aplicação clínica da EUS-RFA concentra-se em três cenários principais:
Tumores Neuroendócrinos Pancreáticos (PanNETs)
A principal indicação atual envolve PanNETs bem diferenciados:
Critérios mais aceitos:
•Lesões ≤ 2 cm •Grau 1 (Classificação histopatológica da World Health Organization– WHO) •Pacientes com alto risco cirúrgico ou que desejam evitar ressecção •Tumores funcionantes, especialmente insulinomas
A EUS-RFA tem se mostrado particularmente eficaz em insulinomas, com potencial de se tornar alternativa padrão à cirurgia em casos selecionados.
Evidências clínicas (Barthet et al., 2019 e 2021):
•Taxa de resposta completa: 85–100% •Baixa recorrência •Perfil de segurança favorável
Lesões Císticas Pancreáticas (PCLs)
A EUS-RFA surge como alternativa minimante invasiva em casos selecionados, especialmente em pacientes com contraindicação cirúrgica, alto risco operatório ou recusa de tratamento cirúrgico. Atualmente sua aplicação permanece em evolução e preferencialmente discutida em contexto multidisciplinar.
Possíveis cenários descritos na literatura:
•IPMN de ramos secundários com critérios preocupantes (Worrisome features) •Lesões císticas ≥ 3 cm •Parede espessada ou nódulo mural •Pacientes inoperáveis ou com alto risco cirúrgico
Resultados clínicos (Barthet et al., 2019):
•Resolução completa em até 65% em 12 meses •Redução >50% do volume cístico em 71% dos casos •Complicações maiores <10%
Adenocarcinoma Ductal Pancreático (PDCA)
Embora ainda em caráter investigacional, a EUS-RFA vem sendo estuda como estratégia complementar no manejo do adenocarcinoma ductal pancreático.
Possíveis cenários de aplicações:
•Doença localmente avançada irressecável •Pacientes não candidatos à cirurgia •Terapia combinada com quimioterapia e/ou radioterapia •Controle paliativo de sintomas •Redução tumoral com potencial conversão para ressecabilidade em casos selecionados
Os dados disponíveis sugerem segurança aceitável, com eventos adversos predominantemente leves, entretanto ainda não está estabelecido como terapia padrão, sendo necessário mais estudos prospectivos e ensaios clínicos randomizados para melhor definição de impacto em sobrevida, controle local e qualidade de vida.
Segurança e Complicações
A EUS-RFA apresenta perfil de segurança favorável quando realizada por equipes experientes.
Estratégias para redução de complicações (Barthet et al., 2019)
•Controle rigoroso da temperatura do eletrodo •Uso de sistemas de resfriamento interno •Anti-inflamatórios por via retal •Antibióticos profiláticos em lesões císticas •Distância segura do ducto pancreático principal (idealmente > 2mm)
Perspectivas Futuras
EUS-RFA está em rápida evolução e tende a ampliar seu papel no manejo minimamente invasivo das lesões pancreáticas selecionadas, especialmente em PanNETs pequenos, lesões císticas mucinosas e, potencialmente, no adenocarcinoma pancreático localmente avançado em estratégias multimodais.
Conclusão
A EUS-RFA representa uma estratégia terapêutica minimamente invasiva promissora. Apesar dos resultados encorajadores e do perfil de segurança favorável, sua incorporação definitiva na prática clínica ainda depende de maior padronização técnica, definição dos critérios ideais de indicação, além de estudos prospectivos e ensaios clínicos randomizados com seguimento a longo prazo. Com o avanço das evidências e refinamento técnico, a tendência é de maior incorporação na prática clínica especializada.
Referências
Karaisz FG, Elkelany OO, Davies B, et al. Review on EUS-guided radiofrequency ablation of pancreatic lesions. Diagnostics. 2023.
Giardino A, Innamorati G, Ugel S, et al. Immunomodulation after radiofrequency ablation of locally advanced pancreatic cancer. Pancreatology. 2017;17:962–966.
Jarosova J, Macinga P, Krupickova L, et al. Impact of endoluminal radiofrequency ablation on immunity in pancreatic cancer and cholangiocarcinoma. Biomedicines. 2022;10:1331.
Larghi A, Rizzatti G, Rimbaş M, et al. Endoscopic ultrasound-guided radiofrequency ablation for pancreatic neuroendocrine neoplasms. Endosc Ultrasound. 2019.
Barthet M, Giovannini M, Lesavre N, et al. EUS-guided RFA for pancreatic neuroendocrine tumors and cystic neoplasms. Endoscopy. 2019.
Barthet M, Giovannini M, Gasmi M, et al. Long-term outcomes after EUS-RFA. Endosc Int Open. 2021
Oh D, Seo DW, Song T, et al. Clinical outcomes of EUS-RFA for unresectable pancreatic cancer. Endosc Ultrasound. 2022.
Escore de Lewis: entenda os fundamentos e seu uso na doença inflamatória intestinal
A utilização da cápsula endoscópica (CE) consolidou-se como uma ferramenta indispensável no manejo da Doença de Crohn (DC) permitindo a visualização direta do intestino delgado, frequentemente inacessível por métodos endoscópicos. No diagnóstico, a CE é superior aos exames radiológicos na detecção de lesões mucosas superficiais e precoces, com indicação principalmente quando há forte suspeita clínica da patologia e exames tradicionais são normais ou inconclusivos. No tratamento e seguimento, a aplicação do Escore de Lewis na Doença de Crohn permite mapear a extensão total da inflamação, estratificar o prognóstico e monitorar a eficácia da terapia através da verificação da cicatrização da mucosa.
O Escore de Lewis: Definição e Validação
O Escore de Lewis (LS) é um sistema de pontuação quantitativo e cumulativo desenvolvido para transformar achados visuais subjetivos da CE em dados numéricos objetivos, padronizando o diagnóstico e acompanhamento da DC. Avalia a gravidade e a distribuição de três parâmetros principais: edema de vilosidades, ulceração e estenose.
O escore enfrentou um longo processo de validação, com estudos confirmando sua utilidade clínica. A literatura indica que o LS pode apresentar uma correlação mais estreita com biomarcadores, como a calprotectina fecal, do que o CECDAI. Sua aplicação principal é na Doença de Crohn do intestino delgado, embora também utiliza-se na avaliação de sangramento gastrointestinal obscuro e outras enteropatias, pois se buscam possíveis lesões que podem causar o quadro clínico investigado.
Indicações e Limitações
As principais indicações do LS incluem a avaliação da atividade inflamatória inicial em pacientes com suspeita de DC e o monitoramento da resposta terapêutica em casos estabelecidos. Uma pontuação maior que 135 tem demonstrado alta eficácia na confirmação do diagnóstico de Crohn durante o seguimento clínico.
Entre as limitações, destacam-se:
Achados endoscópicosinespecíficos. O escore gradua a atividade inflamatória, mas não determina a etiologia. Assim, lesões causadas por AINEs, infecções, doença de Behçet ou isquemia podem gerar pontuações elevadas indistinguíveis da DC.
Dificuldade em mensurar o tamanho das lesões.
Dificuldade em mensurar a quantidade de lesões, já que a CE pode registrar uma lesão várias vezes.
Necessidade de treinamento médico rigoroso para garantir a precisão do cálculo.
Uso e Cálculo do Escore de Lewis
Divisão do intestino delgado em tercis
Para utilizar o LS, o sistema divide automaticamente o tempo de trânsito da cápsula no intestino delgado em três partes iguais, denominadas tercis. Observe que a divisão é pelo tempo de trânsito e não pela anatomia, pois não se pode determinar com certeza a localização de um achado neste exame. Se a cápsula não entrar no cólon (exame incompleto), o sistema calculará o tempo de trânsito pelo intestino delgado até a última imagem obtida.
Avaliação das características mucosas
Em cada tercil, avaliam-se as seguintes características:
Parâmetros de Mucosa
Aparência das vilosidades é classificada como edema quando a largura da vilosidade é igual ou maior que a sua altura, observada em uma mucosa distinta e separada de uma úlcera, em vez de contígua a uma ruptura mucosa.
Úlceras foram definidas como rupturas mucosas com bases brancas ou amarelas, circundadas por colares vermelhos ou rosados. O tamanho da úlcera, baseado na maior úlcera visualizada em cada tercil, foi determinado pela lesão inteira, incluindo o seu colar circundante, medido de acordo com a porcentagem da imagem da cápsula ocupada pela lesão ulcerada. O número de lesões foi definido como única, poucas (duas a sete lesões) ou múltiplas (oito ou mais lesões).
Estenose
A avaliação da estenose é global para todo o estudo e considera:
Número de estenoses
Presença de ulceração
Capacidade de transposição pela cápsula
Definição da extensão do acometimento
Define-se o envolvimento do segmento do intestino delgado com base na porcentagem do tercil específico que apresenta alteração mucosa:
Segmento curto: acometimento < 10% do tercil
Segmento longo: acometimento entre 11–50%
Segmento total: acometimento > 50%.
Cálculo do escore
O escore total é a soma do escore do tercil mais gravemente afetado com o score de estenose. Como a soma das pontuações de cada tercil em um caso de doença leve poderia resultar em um número total maior do que o de um único tercil com doença grave, optou-se por calcular o escore baseando-se no tercil mais grave somado à pontuação de estenose.
Assim, um escore total foi criado da seguinte forma: escore do tercil máximo {[(parâmetro de vilosidade x extensão x descritor) + (parâmetro de úlcera x extensão x tamanho)] para o tercil 1 ou [(parâmetro de vilosidade x extensão x descritor) + (parâmetro de úlcera x extensão x tamanho)] para o tercil 2 ou [(parâmetro de vilosidade x extensão x descritor) + (parâmetro de úlcera x extensão x tamanho)] para o tercil 3} + (número de estenoses x ulcerada x transposta).
Classificação da atividade inflamatória
A pontuação final estratifica a inflamação em três níveis:
LS < 135: normal ou inflamação insignificante
LS 135-790: doença leve
LS > 790: doença moderada a grave
Para facilitar, atualmente softwares integrados e aplicativos automatizam essa divisão e o cálculo final.
Parâmetros do Escore de Lewis
Parâmetros
Número
Extensão Longitudinal
Descritores
Primeiro tercil
Aparência das vilosidades
Normal = 0
Segmento curto = 8
Única = 1
Edematosa = 1
Segmento longo = 12
Em manchas = 14
Todo o tercil = 20
Difusa = 17
Úlcera
Nenhuma = 0
Segmento curto = 5
< 1/4 = 9
Única = 3
Segmento longo = 10
1/4 – 1/2 = 12
Poucas = 5
Todo o tercil = 15
> 1/2 = 18
Múltiplas = 10
Segundo tercil
Aparência das vilosidades
Normal = 0
Segmento curto = 8
Única = 1
Edematosa = 1
Segmento longo = 12
Em manchas = 14
Todo o tercil = 20
Difusa = 17
Úlcera
Nenhuma = 0
Segmento curto = 5
< 1/4 = 9
Única = 3
Segmento longo = 10
1/4 – 1/2 = 12
Poucas = 5
Todo o tercil = 15
> 1/2 = 18
Múltiplas = 10
Terceiro tercil
Aparência das vilosidades
Normal = 0
Segmento curto = 8
Única = 1
Edematosa = 1
Segmento longo = 12
Em manchas = 14
Todo o tercil = 20
Difusa = 17
Úlcera
Nenhuma = 0
Segmento curto = 5
< 1/4 = 9
Única = 3
Segmento longo = 10
1/4 – 1/2 = 12
Poucas = 5
Todo o tercil = 15
> 1/2 = 18
Múltiplas = 10
Estenose – avaliação global
Estenose
Nenhuma = 0
Ulcerada = 24
Transpassa = 7
Única = 14
Não ulcerada = 2
Não transpassa = 10
Múltiplas = 20
Tabela: Parâmetros e pontuação do Escore de Lewis na Doença de Crohn.
E você, já sabia quais eram os fundamentos do Escore de Lewis? Escreva abaixo qual a sua experiência com o uso deste escore. Espero que possa ser útil no acompanhamento de seus pacientes.
Até a próxima!
Referências
1. Yablecovitch D, Lahat A, Neuman S, Levhar N, Avidan B, Ben-Horin S, Eliakim R, Kopylov U. The Lewis score or the capsule endoscopy Crohn’s disease activity index: which one is better for the assessment of small bowel inflammation in established Crohn’s disease? Ther Adv Gastroenterol. 2018 Jan 14;11:1756283X17747780. doi: 10.1177/1756283X17747780. PMID: 29399042; PMCID: PMC5788095.
2. Cotter J, Dias de Castro F, Magalhães J, Moreira MJ, Rosa B. Validation of the Lewis score for the evaluation of small-bowel Crohn’s disease activity. Endoscopy. 2015 Apr;47(4):330-5. doi: 10.1055/s-0034-1390894. Epub 2014 Nov 20. PMID: 25412092.
3. Gralnek IM, Defranchis R, Seidman E, Leighton JA, Legnani P, Lewis BS. Development of a capsule endoscopy scoring index for small bowel mucosal inflammatory change. Aliment Pharmacol Ther. 2008 Jan 15;27(2):146-54. doi: 10.1111/j.1365-2036.2007.03556.x. Epub 2007 Oct 23. PMID: 17956598.
4. Koulaouzidis A, Douglas S, Plevris JN. Lewis score correlates more closely with fecal calprotectin than Capsule Endoscopy Crohn’s Disease Activity Index. Dig Dis Sci 2012; 57: 987–993
5. Rosa B, Moreira MJ, Rebelo A et al. Lewis Score: a useful clinical tool for patients with suspected Crohn’s Disease submitted to capsule endoscopy. J Crohns Colitis 2012; 6: 692–697
Aproveite para aprofundar seus conhecimentos sobre o índice CDEIS e a padronização de escores na Doença de Crohn.
Ressequei uma lesão colorretal… e agora?
Após a ressecção endoscópica de uma lesão colorretal, vem o momento mais crítico da tomada de decisão:
Foi curativo… ou ainda não terminamos o tratamento?
Responder essa pergunta depende de vários fatores. E é justamente aqui que começam as maiores dúvidas na prática clínica.
Neste texto, vamos abordar de forma direta e objetiva os principais pontos que você precisa avaliar para definir se a sua ressecção foi realmente curativa.
O que define uma margem vertical negativa?
Segundo o guideline de 2022 da ESGE1:
Idealmente ≥ 1 mm de margem livre.
Mas atenção:
Não existem evidências suficientes na literatura para determinar que uma margem com extensão < 1mm seja positiva, mas margens inferiores a esse tamanho podem aumentar o risco de recidiva local.
Se a distância entre a lesão e a margem vertical for inferior a 1 mm mas livre de tumor, isso não acarreta em uma mudança de tratamento, sendo recomendado apenas seguimento, que deve ser mais rigoroso
Ressecção em monobloco com margens negativas (R0) é sinônimo de cura?
NÃO necessariamente!
Ter margens livres (R0) é essencial, mas está longe de ser suficiente. Outros critérios devem ser avaliados em conjunto. A decisão real depende de uma análise histopatológica mais profunda, que vai estimar o risco de metástase linfonodal.
Se não basta ser R0… o que mais importa?
Segundo as diretrizes japonesas (JSCCR)2, a ressecção só é considerada curativa quando TODOS os critérios abaixo estão presentes:
Margens livres
Adenocarcinoma bem ou moderadamente diferenciado (tubular ou papilífero)
Invasão submucosa < 1000 μm (T1a)
Ausência de invasão linfática ou vascular
Tumor budding baixo (BD1): 0–4 buds
Se tudo isso estiver presente:
O risco de metástase linfonodal é muito baixo → nenhum tratamento adicional é necessário
Já o guideline da ESGE1 propõe uma abordagem baseada em estratificação de risco:
Muito baixo risco (< 0,5%)
Ressecção en bloc R0
Displasia ou lesão pT1a (submucosa superficial)
Diferenciada
Sem invasão linfovascular
Baixo risco (< 2%)
Ressecção en bloc R0
T1b superficial (Sm1)
Diferenciada
Sem invasão linfovascular
Tumor budding… o que é e por que isso importa tanto?
O tumor budding corresponde a células tumorais isoladas ou pequenos agrupamentos (até 4 células) localizados na frente invasiva do tumor4.
Em outras palavras: é um marcador de agressividade tumoral.
E é exatamente por isso que ele importa tanto: identifica tumores biologicamente mais agressivos, mesmo quando outros critérios parecem favoráveis.
Na prática:
BD1 → baixo risco
BD2/BD3 → maior risco de metástase → considerar tratamento adicional
A profundidade de invasão submucosa ainda é um critério isolado absoluto?
Cada vez menos.
Evidências recentes mostram que:
A invasão ≥ 1000 μm isoladamente pode superestimar o risco
Quando isolada, o risco de metástase linfonodal é baixo
Não se mantém como fator independente em análises ajustadas
Uma meta-análise publicada por Zwager e colaboradores3, que incluiu 67 estudos com mais de 21 mil pacientes, mostrou que:
A taxa global de metástase linfonodal em câncer colorretal T1 foi 11,2%.
Embora a invasão submucosa profunda esteja associada a maior risco em análise univariada, não se mostrou um fator independente significativo quando ajustada para outros fatores histológicos.
Quando presente como único fator de risco, a taxa absoluta de metástase linfonodal foi de aproximadamente 2,6%.
Ou seja:
Não devemos tomar decisões baseadas em um único critério.
Essa abordagem mais individualizada tem ganhado espaço no manejo contemporâneo do câncer colorretal precoce.
Mas e então… quando devo indicar tratamento adicional após ressecção endoscópica?
Quando o risco de metástase linfonodal deixa de ser desprezível.
Os principais sinais de alerta são:
Margem vertical positiva
Invasão submucosa ≥ 1000 μm (T1b)
Invasão linfática ou vascular
Histologia desfavorável:
Pouco diferenciado
Mucinoso
Células em anel de sinete
Tumor budding alto (BD2 ou BD3)
A presença de qualquer um desses fatores aumenta a probabilidade de disseminação linfonodal e, portanto, pode justificar tratamento cirúrgico adicional.
No entanto, a decisão final não deve ser baseada apenas na histologia. As diretrizes ressaltam que fatores do paciente também devem ser considerados, como idade, comorbidades, condição funcional e impacto potencial da cirurgia na qualidade de vida.
Mensagem final
A definição de ressecção endoscópica curativa no câncer colorretal precoce deve ser baseada em uma avaliação integrada dos fatores histopatológicos de risco para metástase linfonodal e fatores relacionados ao paciente.
Margens negativas e profundidade de invasão submucosa, embora fundamentais, não devem ser interpretadas isoladamente.
A estratificação adequada do risco requer a análise conjunta de múltiplos parâmetros, incluindo:
grau de diferenciação tumoral
presença de invasão linfovascular
tumor budding
padrão de ressecção (en bloc vs piecemeal)
Essa abordagem multidimensional permite uma estimativa mais precisa do risco oncológico e orienta de forma mais segura a decisão entre seguimento endoscópico e tratamento cirúrgico adicional.
Portanto, a conduta deve ser individualizada, considerando não apenas os achados histológicos, mas também as características clínicas do paciente e o impacto potencial das diferentes estratégias terapêuticas.
Referências
Endoscopic submucosal dissection for superficial gastrointestinal lesions: European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE) Guideline – Update 2022. Endoscopy, 2022. Pimentel-Nunes Pedro et al.
Japanese Society for Cancer of the Colon and Rectum (JSCCR) guidelines 2024 for the treatment of colorectal cancer.
Deep Submucosal Invasion Is Not an Independent Risk Factor for Lymph Node Metastasis in T1 Colorectal Cancer: A Meta-Analysis. Gastroenterology, 2022. Liselotte W Zwager et al.
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Antibioticoprofilaxia em pacientes com obstrução biliar submetidos à CPRE
Introdução
O uso de antibióticos profiláticos de rotina em pacientes submetidos à Colangiopancreatografia Retrógrada Endoscópica (CPRE) não é recomendado pelas principais sociedade de endoscopia do mundo, incluindo a American Society for Gastrointestinal Endoscopy (ASGE) e European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE) (1,2). Embora exista consenso de que a antibioticoprofilaxia peri-procedimento reduz a incidência de bacteremia pós-CPRE, seu impacto na prevenção de colangite e sepse ainda permanece controverso. Análises de subgrupos de diferentes trabalhos identificaram populações que poderiam se beneficiar do uso profilático de antibióticos antes da CPRE – pacientes com alto risco de drenagem biliar difícil/incompleta, imunocomprometidos e submetidos à colangioscopia – limitando a indicação do uso de antibioticoprofilaxia apenas para esses grupos (1,2).
Uma metanálise publicada em 2022, com 10 ensaios clínicos randomizados (ECR) comparando o uso de antibioticoprofilaxia em pacientes submetidos à CPRE eletiva, incluiu 1757 pacientes e demonstrou redução da bacteremia no grupo antibiótico, porém não houve diferença em relação à colangite ou sepse (3).
Uma importante crítica em relação aos estudos utilizados para embasar as recomendações é a falta de seleção adequada de pacientes. Trabalhos mais antigos sugeriram possível benefício da antibioticoprofilaxia em pacientes com obstrução biliar (4,5). Nesse contexto, um grupo sul-coreano conduziu um ECR comparando o uso de antibioticoprofilaxia em pacientes com obstrução biliar submetidos à CPRE (6).
Métodos
Desenho do estudo
Ensaio clínico randomizado 1:1, duplo-cego, realizado em centro terciário único.
Seleção de pacientes
Critérios de inclusão: adultos com obstrução biliar documentada por exame de imagem (tomografia ou ressonância magnética) submetidos à CPRE.
Critérios de exclusão: evidência de infecção (leucócitos > 11.000 e/ou febre T>= 38oC), uso de antibióticos nas últimas 72 horas, gravidez e alergia ao antibiótico.
Grupos do estudo
Intervenção (antibiótico): Cefoxitina 1g IV em 10ml de SF0,9% 30min antes da CPRE.
Controle (placebo): 10ml de SF0,9% 30 min antes da CPRE. A escolha do antibiótico foi baseada no perfil microbiológico local, em conjunto com a equipe de infectologia do hospital.
Desfechos
Primário: incidência de complicação infecciosa pós-CPRE (bacteremia, colangite e colecistite).
Secundário: incidência de cada complicação infecciosa específica, demais complicações pós-CPRE (pancreatite e sangramento).
Cálculo amostral
400 pacientes (considerando 10% de perda).
Resultados
População
378 pacientes randomizados entre 2017–2021
189 em cada grupo
Análise final: 176 (antibiótico) vs. 173 (placebo)
Desfecho primário
Houve redução significativa de complicações infecciosas no grupo antibiótico.
Antibiótico: 2,8% (5/176)
Placebo: 9,8% (17/173)
Risco Relativo (RR): 0,29; IC 95%, 0,11–0,74; p=0.0073
Desfechos secundários
Bacteremia: sem diferença estatisticamente significativa.
Antibiótico: 2,3% (4/176)
Placebo: 6,4% (11/173)
RR: 0,36; 95% CI, 0,12–1,04; p=0,0599
Dos 15 pacientes com bacteremia, 10 evoluíram com sepse.
Colangite: houve redução significativa.
Antibiótico: 1,7% (3/176)
Placebo: 6,4% (11/173)
RR: 0,27; 95% CI, 0.08–0.87; p=0,0267
Colecistite: ocorreu em apenas 1 paciente do grupo placebo.
Demais complicações (sangramento, pancreatite): sem diferença entre os grupos.
Houve maior incidência de complicações no grupo placebo em ambas as etiologias. Entretanto, a diferença foi significativa apenas para colangite na etiologia benigna, com incidência de 3,1% no grupo antibiótico vs. 10,2% no grupo placebo (p=0,0421)
Drenagem biliar completa
Mesmo nos casos em que houve drenagem biliar completa, observou-se benefício do antibiótico profilático:
Complicações infecciosas: antibiótico 3,1% vs. placebo 10,6% (p=0,0077) Colangite:antibiótico 1,9% vs. placebo 6,9% (p=0,0279)
Fatores de risco relacionados ao procedimento, como CPRE prévia, retirada de cálculos e dilatação balonada, apresentaram tendência a maior risco de complicações infecciosas pós-CPRE no grupo placebo; contudo, não houve significância estatística (Figura 2).
Figura 2: risco relativo de complicação infecciosa pós-CPRE no grupo placebo, de acordo com procedimentos realizados (original do artigo).
Discussão
Este ECR duplo-cego robusto demonstrou que o uso de antibiótico profilático pré-CPRE, em pacientes com obstrução biliar sem infecção manifesta, reduz a incidência de complicações infecciosas pós-procedimento, incluindo colangite, mesmo em pacientes nos quais houve drenagem biliar completa.
Esses achados contrastam com as recomendações atuais dos guidelines das principais sociedades de endoscopia do mundo (ASGE e ESGE), e podem representar uma possível mudança de paradigma.
Embora a colangite tenha apresentado redução significativa, esse achado deve ser interpretado com cautela, pois se trata de desfecho secundário, o que significa que o estudo não foi dimensionado especificamente para avaliá-lo. Ainda assim, a magnitude do efeito observada sugere um possível benefício clínico real, que idealmente deve ser confirmado em estudos com cálculo amostral direcionado para esse desfecho.
Apesar dos benefícios demonstrados, os autores colocam que é importante estudar o impacto do aumento do uso de antibióticos profiláticos no perfil de resistência das bactérias, sendo importante uma avaliação conjunta com o serviço de infectologia de cada hospital para a escolha do antibiótico ideal.
É importante ressaltar que o estudo não recomenda antibioticoprofilaxia de rotina para toda CPRE, mas sim apenas em pacientes com obstrução biliar manifesta.
Por fim, os autores sugerem que o benefício da antibioticoprofilaxia pode ser maior em pacientes com CPRE prévia e quando há maior manipulação da via biliar – como quando há dilatação balonada e retirada de cálculos.
Conclusão
O estudo traz evidência robusta de que a antibioticoprofilaxia em pacientes com obstrução biliar submetidos à CPRE reduz complicações infecciosas, incluindo a colangite — mesmo em casos de drenagem completa.
Diante desses achados, é possível que as diretrizes passem por reavaliação nos próximos anos à luz de toda a literatura disponível. Enquanto isso, na prática clínica, vale considerar o uso de antibioticoprofilaxia em pacientes selecionados com obstrução biliar e indicação de CPRE, individualizando a decisão caso a caso.
Referências
ASGE Standards of Practice Committee, Khashab MA, Chithadi KV, et al. Antibiotic prophylaxis for GI endoscopy. Gastrointest Endosc. 2015;81(1):81-89. doi:10.1016/j.gie.2014.08.008
ASGE Standards of Practice Committee, Khashab MA, Chithadi KV, et al. Antibiotic prophylaxis for GI endoscopy. Gastrointest Endosc. 2015;81(1):81-89. doi:10.1016/j.gie.2014.08.008
Merchan MFS, de Moura DTH, de Oliveira GHP, et al. Antibiotic prophylaxis to prevent complications in endoscopic retrograde cholangiopancreatography: A systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. World J Gastrointest Endosc. 2022;14(11):718-730. doi:10.4253/wjge.v14.i11.718
Niederau C, Pohlmann U, L¨ubke H, et al. Prophylactic antibiotic treatment in therapeutic or complicated diagnostic ERCP: Results of a randomized controlled clinical study. Gastrointest Endosc 1994;40(5):533–7.
van den Hazel SJ, Speelman P, Dankert J, et al. Piperacillin to prevent cholangitis after endoscopic retrograde cholangiopancreatography. A randomized, controlled trial. Ann Intern Med 1996;125(6):442–7.
Leem G, Sung MJ, Park JH, et al. Randomized Trial of Prophylactic Antibiotics for Endoscopic Retrograde Cholangiopancreatography in Patients With Biliary Obstruction. Am J Gastroenterol. 2024;119(1):183-190. doi:10.14309/ajg.0000000000002495
Para saber mais sobre as clássicas indicações de antibioticoprofilaxia na CPRE, confira este material: Profilaxia antibiótica em CPRE.
Será que UNDERWATER pode ser o futuro das ressecções de lesões de cólon?
O padrão atual para remoção de pólipos médios (10–20 mm) é Mucosectomia Convencional (EMR), que depende da injeção de solução salina para elevar a lesão. Porém, esse padrão-ouro tem uma falha importante: frequentemente não remove os tumores em bloco, levando a ressecções fragmentadas e taxas de recorrência entre 15% e 23,5%.
O segredo está na física. Ao injetar fluido sob o pólipo, criamos tensão na mucosa, o que dificulta ao endoscopista capturar profundamente a lesão com a alça. Recentemente, uma técnica vem revolucionando o campo: a Ressecção Endoscópica da Mucosa Subaquática, também conhecida como Mucosectomia Underwater (UEMR). Esta técnica elimina a injeção e preenche o cólon com água, permitindo que a flutuabilidade natural faça o trabalho.
Não é necessário injetar para alcançar profundidade
O achado mais surpreendente dos estudos clínicos recentes é que não é preciso um “colchão” salino para cortar com segurança e profundidade.
Em um estudo clínico randomizado, a UEMR atingiu profundidade média de 1.688,9 μm, numericamente maior que os 1.432,3 μm obtidos pelo método com injeção. Embora o resultado tenha mostrado apenas não inferioridade estatística (P=0,18), ele desmonta o mito de que a injeção é essencial para segurança.
O segredo é um fenômeno chamado redução gravitacional. Ao encher o cólon com água em vez de ar, a flutuabilidade faz a lesão “boiar” para longe da muscular própria, permitindo que a alça capture tecido submucoso adequado sem risco de envolvimento muscular ou perfuração.
Figura 1: Ecoendoscopia evidenciado a mucosa e submucosa ‘flutuando” enquanto a camada muscular se mantém estável. Na UEMR, as lesões flutuam na água por redução gravitacional, permitindo ressecção segura sem envolver a camada muscular.
UEMR e o cólon direito
O cólon direito, especialmente o ceco e o cólon ascendente são áreas de desafio para o endoscopista: paredes finas, curvas difíceis e maior dificuldade técnica. Mesmo assim, na UEMR, os resultados foram superiores: 1.822,4 μm de profundidade contra 1.096,5 μm com EMR (P=0,01).
A UEMR se destaca no cólon direito porque:
as paredes finas tornam perigoso uma ressecção profunda com injeção,
a água evita a tensão excessiva da insuflação com ar,
há melhor manobrabilidade em ângulos difíceis.
Com água, a pressão intraluminal diminui e a parede não fica esticada, permitindo que o tumor protrua mais naturalmente e seja capturado com segurança.
Tratando pólipos planos
Pólipos superficiais (“flat”) são desafiadores porque costumam estar presos por fibrose submucosa, que impede a elevação com a injeção. A UEMR resolve isso: a flutuabilidade transforma a lesão plana em uma lesão polipoide, permitindo profundidades significativamente maiores (1.238,7 μm vs. 731,6 μm; P<0,01).
Debaixo d’água, a força de flutuação supera a fibrose e libera a base da lesão, facilitando a captura pela alça.
Figura 2. Mucosectomia underwater. Lesão plana de reto. Infusão de água seguida de captura da lesão com alça, sem injeção.
O grande equalizador dos endoscopistas
A descoberta mais impactante: a UEMR reduz a dependência da experiência do operador.
Endoscopistas com <10 anos de prática obtiveram profundidades maiores com UEMR (1.786,6 μm) do que com EMR (1.192,4 μm). Isso ocorre porque a injeção aumenta a tensão mucosa, tornando o alvo mais difícil. Já na UEMR, a lesão flutua, tornando o procedimento mais intuitivo e uniforme entre diferentes níveis de habilidade.
E tudo isso sem aumentar o tempo de procedimento (7,2 min vs. 6,5 min; P=0,34).
Conclusão: será que estamos em frente à um novo padrão-ouro?
Os dados mostram que a UEMR é:
não inferior em profundidade total,
superior no cólon direito,
superior para lesões planas,
mais estável para operadores menos experientes.
Enquanto aguardamos estudos internacionais maiores, o que já está claro é que estamos entrando em uma nova era no tratamento endoscópico das lesões do cólon, onde a ferramenta mais importante pode não ser uma agulha, mas sim os princípios básicos da física dos fluidos.
Tamaru Y, Miyakawa A, Shimura H, et al. Resection depth of underwater versus conventional endoscopic mucosal resection for intermediate-sized tumors. Am J Gastroenterol 2026 Jan 9.
Doença Digestiva Relacionada ao IgG4: do diagnóstico ao tratamento
A doença digestiva relacionada ao IgG4 (DR-IgG4) é uma condição fibroinflamatória sistêmica, crônica e imunomediada, que pode afetar virtualmente qualquer órgão. Sua capacidade de mimetizar malignidades, especialmente no pâncreas e nas vias biliares, representa um desafio diagnóstico significativo na prática clínica.
Diagnóstico
O diagnóstico da DR-IgG4 não depende de um único teste definitivo. Pelo contrário, exige uma abordagem abrangente e criteriosa que integra achados clínicos, sorológicos, de imagem e histológicos, além da avaliação da resposta à terapia com glicocorticoides (Para ver um exemplo clínico detalhado de diagnóstico diferencial de colangite por IgG4 versus colangiocarcinoma hilar, leia este relato de caso). Esta abordagem multifacetada é crucial para evitar diagnósticos equivocados, sendo o mais grave a confusão com adenocarcinoma de pâncreas ou colangiocarcinoma, o que pode levar a tratamentos inadequados e potencialmente danosos.
Biomarcadores Séricos
A análise de marcadores séricos é um dos primeiros passos na investigação, mas seus resultados devem ser interpretados com cautela.
• Níveis Séricos de IgG4: Embora a dosagem de IgG4 seja um exame fundamental na suspeita da doença, ela, isoladamente, carece de sensibilidade e especificidade. Muitos pacientes com a doença podem ter níveis normais, enquanto outras condições inflamatórias podem apresentar elevações. Contudo, níveis muito elevados — especificamente acima de quatro vezes o limite superior da normalidade — aumentam consideravelmente o valor diagnóstico e a especificidade do teste.
• Antígeno CA19-9: Este marcador tumoral é frequentemente utilizado na investigação de malignidades pancreatobiliares. No contexto da DR-IgG4, sua precisão é limitada, especialmente na presença de colangite obstrutiva, que pode causar elevações acentuadas. Apesar disso, por ser um teste barato e de fácil execução, pode ser usado para diagnóstico diferencial com o adenocarcinoma de pâncreas, mas nunca como um marcador isolado para confirmar ou excluir malignidade.
Portanto, a abordagem sorológica é mais útil para levantar suspeitas e compor o quadro diagnóstico do que para confirmar ou excluir a doença de forma isolada, reforçando a necessidade de correlação com imagem e histologia.
Achados Clássicos de Imagem e Histologia
A Pancreatite Autoimune (PAI) tipo 1 é a manifestação pancreática da DR-IgG4 e possui características de imagem e histológicas bem definidas que são pilares para o diagnóstico.
• Critérios de Imagem (TC/RM): A tomografia computadorizada (TC) e a ressonância magnética (RM) revelam achados clássicos que levantam a suspeita de PAI:
◦ Aumento difuso ou focal do pâncreas, com perda do padrão lobulado, conferindo um aspecto de “salsicha”.
◦ Presença de um halo peripancreático de baixo sinal em T1 na RM, representando edema e fibrose.
◦ Estreitamento do ducto pancreático principal, caracteristicamente sem dilatação significativa a montante — um achado chave que o diferencia de obstruções malignas, que tipicamente causam dilatação ductal acentuada.
• Achados Histológicos Fundamentais: A confirmação histológica é frequentemente necessária, e a PAI tipo 1 é definida por quatro características chave:
◦ Infiltrado linfoplasmocitário denso, frequentemente acompanhado por eosinófilos.
◦ Fibrose estoriforme, com um padrão clássico em “roda de carroça”.
◦ Flebilite obliterante, que é a inflamação e oclusão de vênulas.
◦ Aumento expressivo de plasmócitos IgG4 positivos. A contagem deve ser superior a 50 células por campo de grande aumento (HPF) em espécimes cirúrgicos e >10 células/HPF em amostras de biópsia (média de contagens em três focos de maior densidade [400x]), com uma razão IgG4/IgG superior a 40%.
O Papel da Endoscopia
Para o gastroenterologista, a endoscopia, particularmente a ecoendoscopia (EUS), desempenha um papel indispensável. A EUS permite uma avaliação detalhada do parênquima pancreático, identificando achados sugestivos como o aumento hipoecoico difuso. Sua função mais crítica, no entanto, é a aquisição de tecido por punção ecoguiada, que é essencial para obter o diagnóstico histológico e, principalmente, para diferenciar a PAI de um carcinoma pancreático.
Nos pacientes ictéricos a CPRE também pode ser útil tratando as estenoses com a colocação de próteses biliares e identificando os padrões suspeitos da colangiopatia.
A complexidade do diagnóstico é um reflexo direto da natureza sistêmica e multifacetada desta doença.
Tratamento das estenoses e paliação da icterícia por CPRE com passagem de prótese biliares. Fonte da imagem: Mendoça EQ. Colangite por IgG4 como diagnóstico diferencial do colangiocarcinoma hilar. Endoscopia Terapeutica 2023, Vol 1. Disponível em: https://endoscopiaterapeutica.net/pt/colangite-por-igg4-como-diagnostico-diferencial-do-colangiocarcinoma-hilar/
Manifestações Clínicas
É fundamental reconhecer a DR-IgG4 como uma doença sistêmica. Embora o pâncreas e as vias biliares sejam os sítios mais comuns de manifestação digestiva, o envolvimento de outros órgãos é frequente e deve ser ativamente investigado em todos os pacientes com suspeita diagnóstica, pois isso reforça o diagnóstico e impacta o manejo terapêutico.
Pâncreas (Pancreatite Autoimune Tipo 1)
O prognóstico e os desfechos a longo prazo da PAI tipo 1 são marcados por uma excelente resposta inicial ao tratamento e a cronicidade da condição.
• Resposta ao Tratamento: A PAI tipo 1 tipicamente apresenta uma resposta excelente e rápida à terapia inicial com glicocorticoides.
• Taxa de Recidiva: Apesar da boa resposta inicial, as taxas de recidiva da doença são altas, variando de 7% a 55% nos estudos europeus, o que frequentemente exige terapia de manutenção.
• Sequelas a Longo Prazo: Com o tempo, é comum o desenvolvimento de insuficiência pancreática exócrina e endócrina, o que demanda um acompanhamento vitalício para manejo nutricional e controle glicêmico.
Fígado e Vias Biliares (Colangite Relacionada ao IgG4)
A Colangiopatia Relacionada ao IgG4 (IRC) é a manifestação hepatobiliar mais comum da doença, frequentemente associada à PAI tipo 1, mas podendo ocorrer de forma isolada.
• Apresentação Clínica: Os pacientes geralmente se apresentam com icterícia (tipicamente indolor), prurido e desconforto abdominal.
• Perfil Bioquímico: O padrão laboratorial é colestático, com elevação de fosfatase alcalina, gama-GT e bilirrubinas. É importante notar que o CA 19-9 pode estar acentuadamente elevado. Essa elevação, combinada com estenoses biliares na imagem, é um dos principais fatores que mimetizam o colangiocarcinoma, tornando a diferenciação histológica imperativa.
• Achados Colangiográficos: A classificação de Nakazawa, baseada em achados de colangiografia, descreve quatro padrões de estenoses biliares. O Tipo 1 (estenose do colédoco distal) é o mais comum, ocorrendo em 64% dos casos.
Classificação colangiografica de Nakazawa e a sua frequência. Fonte da imagem: Classification and characteristics of IgG4-associated cholangitis and how to differentiate it from hepatobiliary malignancies — mimicry in hepatobiliary endoscopy. Endoscopy-campus.com.
Envolvimento Sistêmico
A DR-IgG4 é, por definição, uma condição sistêmica, com o envolvimento de múltiplos órgãos ocorrendo em até 75% dos pacientes. A investigação de outras manifestações é mandatória. Além do trato pancreato-hepatobiliar, os órgãos mais frequentemente acometidos incluem:
• Glândulas salivares e lacrimais (Doença de Mikulicz)
• Retroperitônio (Fibrose retroperitoneal)
• Rins (Nefrite túbulo-intersticial)
• Pulmões
• Aorta (Aortite)
Esta ampla gama de apresentações clínicas converge para o principal desafio diagnóstico: a distinção entre esta doença inflamatória e o câncer.
O Dilema Diagnóstico: DR-IgG4 vs. Câncer
A diferenciação entre DR-IgG4 e malignidades — como o câncer de pâncreas, o colangiocarcinoma ou o linfoma — é um dos maiores e mais críticos desafios na gastroenterologia. Um diagnóstico preciso é de importância estratégica fundamental: ele evita cirurgias de grande porte desnecessárias em pacientes com uma doença benigna e tratável e, inversamente, previne o atraso no início de um tratamento oncológico em pacientes com câncer.
• Clínica e Laboratório: Os sintomas são frequentemente sobreponíveis. Perda de peso, icterícia e dor abdominal são comuns a ambas as condições. Não existe um exame de sangue específico que possa, de forma isolada, diferenciar confiavelmente as duas doenças.
• Radiologia: Embora alguns achados combinados em TC e RM possam auxiliar, a diferenciação radiológica de uma massa focal de PAI de um adenocarcinoma pancreático permanece extremamente desafiadora.
• Histologia em Biópsias: Em amostras pequenas obtidas por biópsia, a diferenciação é particularmente difícil. O risco de erro amostral é significativo, e a presença de inflamação inespecífica com células IgG4 positivas pode ocorrer tanto na DR-IgG4 quanto em tecidos peritumorais de malignidades.
Na prática clínica, diante da impossibilidade de excluir malignidade com segurança, um pequeno número de ressecções pancreáticas por suspeita de câncer acaba sendo inevitável.
Tratamento Sistêmico
Os objetivos do tratamento da DR-IgG4 são claros: suprimir a atividade inflamatória, retardar a progressão da fibrose e prevenir complicações e a falência de órgãos a longo prazo.
Terapia de Indução de Remissão
Indicações: A decisão de iniciar o tratamento deve ponderar a presença de sintomas e o risco de dano orgânico irreversível. A terapia é indicada para pacientes sintomáticos (com dor, icterícia obstrutiva) e para assintomáticos que apresentam risco de desenvolver falência orgânica devido ao processo fibroinflamatório.
• Droga de Escolha: Os glicocorticoides são a pedra angular da terapia de indução.
• Esquema Posológico: O tratamento deve ser iniciado com prednisona oral em uma dose baseada no peso, de 0,6-0,8 mg/kg/dia (tipicamente 30-40 mg/dia), mantida por um mês para induzir a remissão.
• Avaliação da Resposta: A resposta ao tratamento deve ser reavaliada em 2 a 4 semanas, utilizando marcadores clínicos (melhora dos sintomas), bioquímicos (queda de bilirrubinas e enzimas hepáticas) e morfológicos (melhora nos exames de imagem).
• Desmame: Após a indução, a dose de corticoide deve ser reduzida gradualmente ao longo de 3 a 6 meses.
Manejo da Recidiva e Terapia de Manutenção
A alta taxa de recidiva exige uma estratégia clara para o manejo a longo prazo, especialmente em pacientes que apresentam retorno da atividade da doença durante ou após o desmame dos corticoides.
• Quando Considerar: A terapia de manutenção ou de segunda linha deve ser considerada se não houver melhora, se a doença recidivar durante os primeiros 3 meses de tratamento, ou em pacientes com alto risco de recidiva (ex: doença multiorgânica).
• Opções de Segunda Linha: Vários agentes imunossupressores podem ser utilizados como poupadores de corticoides ou para tratar recidivas:
◦ Rituximabe: Este anticorpo monoclonal anti-CD20 deve ser considerado em pacientes resistentes ou intolerantes aos glicocorticoides, ou naqueles que falharam com outros imunossupressores.
◦ Outros Imunossupressores: Agentes como as tiopurinas (azatioprina), micofenolato de mofetila e metotrexato são opções válidas como terapia poupadora de corticoides para manter a remissão.
Conclusão
Pense de Forma Sistêmica: Lembre-se sempre que a DR-IgG4 é uma doença multiorgânica. A presença de uma manifestação (ex: PAI) deve levar à busca ativa por envolvimento em outros órgãos.
• Diagnóstico é difícil: Nenhum teste isolado confirma o diagnóstico. A certeza diagnóstica vem da combinação criteriosa de dados clínicos, laboratoriais, de imagem e histológicos.
• A EUS com Biópsia é fundamental: A ecoendoscopia com punção por agulha é a ferramenta mais poderosa para diferenciar a PAI tipo 1 focal do câncer de pâncreas, uma etapa indispensável no diagnóstico.
• Resposta Rápida aos Corticoides: Uma resposta clínica e laboratorial dramática à corticoterapia em 2-4 semanas é uma característica marcante da doença e apoia fortemente o diagnóstico.
• Vigie o Risco de Malignidade: A DR-IgG4 pode estar associada a um risco aumentado de desenvolvimento de câncer. A vigilância é recomendada para todos os pacientes.
Referências
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Você sabe interpretar um laudo de cápsula endoscópica?
Você já recebeu um laudo de enteroscopia por cápsula endoscópica? Sabe dizer as limitações que podem ocorrer em sua interpretação e os motivos? Hoje, vamos te ajudar a entender alguns pontos que o ajudarão a determinar sua conduta frente ao seu paciente.
A enteroscopia por cápsula endoscópica trouxe avanços significativos para a investigação do trato gastrointestinal e está cada vez mais disponível ao médico. Entretanto, sua leitura ainda enfrenta obstáculos importantes, destacando-se entre eles a velocidade de trânsito e percurso variáveis da cápsula e a interpretação subjetiva dos achados.
Em artigo anterior (Elaboração do laudo no exame de cápsula endoscópica do intestino delgado) falamos sobre a confecção do laudo deste exame. Agora, falaremos sobre alguns pontos importantes que tanto quem produz o laudo quanto que o recebe devem entender pois, principalmente para estes, pode haver confusão sobre como interpretá-lo.
Este é um exame que apresenta algumas limitações técnicas:
Campo de visão restrito: a câmera captura apenas uma parte da mucosa, podendo deixar áreas sem registro;
Velocidade de trânsito e percurso variáveis: em alguns segmentos, a cápsula pode avançar rapidamente, reduzindo a quantidade de imagens disponíveis. Trânsito intestinal rápido (exame curto) reduz amostragem da mucosa fotografada.
Qualidade da imagem: presença de resíduos alimentares, bolhas e outros corpos estranhos podem comprometer a nitidez.
Interpretação subjetiva: a leitura depende da experiência do examinador. Lesões discretas, como pequenas erosões ou angiodisplasias, podem passar despercebidas. Não há padronização universal para a descrição de achados e limpeza intestinal, o que pode gerar variabilidade diagnóstica entre diferentes profissionais.
A velocidade de trânsito variável ocorre porque o movimento da cápsula depende do peristaltismo natural do intestino. Em alguns segmentos, a cápsula pode avançar rapidamente, deixando lacunas na avaliação da mucosa e mesmo no intervalo entre uma foto e outra, a cápsula pode passar por uma lesão sem registrá-la (Figura 1; Situação 1).
Figura 1. Situação 1: a cápsula não registra a lesão. Situação 2: a cápsula registra a lesão
Em outros momentos, pode permanecer por longos períodos em uma mesma região, gerando excesso de imagens redundantes. A Figura 2 exemplifica um percurso (linha azul) aleatório que a cápsula pode fazer nos segmentos intestinais. Essa irregularidade compromete a uniformidade da documentação e aumenta o risco de que pequenas lesões passem despercebidas ou de se aumentar o número de lesões realmente existentes. Por meio da Figura 2 observam-se alguns pontos:
uma lesão pode ser registrada várias vezes, o que pode levar a interpretação de haver mais lesões;
a cápsula não percorre o intestino somente em uma direção: ela “vai e volta”;
a cápsula pode permanecer em um segmento muito tempo, pois não tem direção nem velocidade uniformes.
Figura 2. Exemplificação da direção variável da cápsula durante trânsito em intestino delgado, podendo permanecer mais tempo em determinados segmentos e registrar redundantemente algumas alterações.
Como a cápsula não apresenta velocidade uniforme nem direção única, pode ocorrer, por exemplo, que em um exame em que a cápsula percorreu o intestino delgado em 06 horas, ela ter ficado em duodeno e jejuno por 05 horas, o que levaria a dificuldades em localizar exatamente as alterações encontradas. Para auxiliar possível abordagem terapêutica posterior, orienta-se que se divida o tempo total para percorrer todo o intestino (no exemplo, as 06 horas) em três terços iguais (proximal, médio e distal), o que é feito automaticamente pelo software, e apontemos os achados nestes terços.
Já a interpretação subjetiva está relacionada ao papel central do médico na análise das imagens. Como o exame produz milhares de fotografias, a identificação de alterações sutis — como erosões discretas, pequenas úlceras ou angiodisplasias — depende da experiência e atenção do examinador. Resíduos podem simular ou ocultar alterações e a ausência de padronização universal para descrever os achados contribui para a variabilidade diagnóstica entre diferentes profissionais. Assim, o resultado pode variar conforme o olhar clínico de quem interpreta (examinador dependente), o que reforça a necessidade de treinamento especializado e, cada vez mais, do apoio de softwares de inteligência artificial para reduzir vieses humanos.
O conhecimento destas particularidades é importante tanto por quem produz o laudo quanto por quem o interpreta pois, considerando o que foi discutido, verifica-se que a cápsula ajuda mais em dizer se tem ou não alguma alteração do que determinar o seu local e quantificá-las, e que uma mesma imagem pode gerar discordância interobservadores.
Com o conhecimento destes detalhes, espero que ter ajudado os prescritores como melhor interpretar um laudo deste exame.
Referências
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Rondonotti E, Spada C, Adler S, May A, Despott EJ, Koulaouzidis A, Panter S, Domagk D, Fernandez-Urien I, Rahmi G, Riccioni ME, van Hooft JE, Hassan C, Pennazio M. Small-bowel capsule endoscopy and device-assisted enteroscopy for diagnosis and treatment of small-bowel disorders: European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE) Technical Review. Endoscopy. 2018 Apr;50(4):423-446. doi: 10.1055/a-0576-0566. Epub 2018 Mar 14. PMID: 29539652.
Pennazio M, Rondonotti E, Koulaouzidis A. Small Bowel Capsule Endoscopy: Normal Findings and Normal Variants of the Small Bowel. Gastrointest Endosc Clin N Am. 2017 Jan;27(1):29-50. doi: 10.1016/j.giec.2016.08.003. PMID: 27908517.
Tumores Adrenais: Diagnóstico, Conduta e o Papel da Punção Ecoguiada
Durante exame de ecoendoscopia, a imagem a seguir foi identificada na adrenal esquerda:
Diante deste achado incidental, qual seria a sua conduta?
Discussão multidisciplinar
Punção ecoguiada com FNA
Punção ecoguiada com FNB
Afinal o que é um incidentaloma adrenal?
Os tumores adrenais — também chamados de incidentalomas adrenais quando encontrados incidentalmente — são achados cada vez mais frequentes nos exames de imagem realizados por outros motivos.
Um incidentaloma adrenal é uma massa ≥1 cm detectada incidentalmente em exames de imagem sem suspeita clínica de doença adrenal. A prevalência estimada é de cerca de 2% na população geral, podendo ultrapassar 10% acima dos 80 anos.
A glândula adrenal também é um sítio comum de metástases — especialmente de tumores de pulmão, mama, rim, melanoma e trato gastrointestinal — sendo o quarto local mais frequente de disseminação metastática. Em pacientes com câncer extra-adrenal, até 75% das massas adrenais representam metástases.
A distinção entre lesões benignas e malignas é essencial, pois define a conduta: acompanhamento, cirurgia ou quimioterapia.
Avaliação inicial e triagem hormonal
Mesmo tumores funcionais podem ser clinicamente silenciosos. Assim, todo incidentaloma deve ser avaliado bioquimicamente para descartar:
Feocromocitoma: dosagem de metanefrinas plasmáticas ou urinárias;
Hiperprodução de cortisol: teste de supressão com dexametasona (1 mg);
Hiperaldosteronismo primário: em pacientes hipertensos.
A exclusão de feocromocitoma é recomendada antes de qualquer biópsia da adrenal, para prevenir a precipitação de uma possível crise hipertensiva.
Diagnóstico por imagem
A tomografia computadorizada (TC) sem contraste é o exame de primeira linha.
Lesões benignas: homogêneas, <4 cm e com atenuação ≤10 unidades Hounsfield (UH), são consideradas adenomas e não necessitam de acompanhamento adicional.
Lesões suspeitas: tamanho >4 cm, heterogeneidade, UH >10, margens irregulares ou áreas de necrose e calcificação indicam maior risco de carcinoma adrenocortical (CAC).
O risco de CAC é <2% em lesões <4 cm, 6% entre 4–6 cm e ≥25% em massas ≥6 cm.
Quando a TC é inconclusiva, podem ser utilizados ressonância magnética (RM) ou tomografia por emissão de positrões (PET) com 18F-fluor-2-desoxi-D-glicose (FDG) para caracterização adicional.
Punção ecoguiada da adrenal
A biópsia da adrenal raramente é necessária, mas pode ser decisiva em casos com histórico de malignidade extra-adrenal ou quando o diagnóstico influencia diretamente o tratamento.
A punção aspirativa/biópsia ecoguiada (EUS-FNA/FNB), vem ganhando destaque pela segurança e precisão.
Vantagens da EUS-FNA/FNB:
Segurança: taxas de complicações próximas a 0%, comparadas a até 4% na via percutânea.
Alta acurácia: sensibilidade de 86%–100% e especificidade de 97%–100% para metástases.
Acesso anatômico favorável: a adrenal esquerda é facilmente acessível pela parede gástrica posterior, sem estruturas críticas interpostas.
Impacto clínico: a confirmação de metástase pode evitar cirurgias desnecessárias e direcionar o tratamento sistêmico.
A biópsia é recomendada se três critérios forem preenchidos:
Exame de imagem (TC) duvidoso para lesão benigna
O resultado histológico pode alterar o manejo clínico
Feocromocitoma excluído
Em pacientes oncológicos, o exame é útil para confirmar metástase isolada, avaliar resposta terapêutica ou redefinir estadiamento.
Conduta e tratamento
O tratamento deve ser individualizado conforme o tipo de lesão e o perfil hormonal.
Lesões benignas e não funcionantes (<4 cm, ≤10 UH): geralmente não requerem intervenção nem seguimento prolongado.
Lesões suspeitas ou malignas: indicam adrenalectomia laparoscópica. A decisão cirúrgica deve considerar tamanho, crescimento, características radiológicas e status funcional.
Metástases adrenais confirmadas: podem ser tratadas com quimioterapia sistêmica ou cirurgia de ressecção em casos selecionados.
O manejo ideal é multidisciplinar, envolvendo endocrinologista, radiologista, cirurgião e endoscopista intervencionista.
Considerações finais
Os tumores adrenais exigem avaliação cuidadosa para evitar tanto cirurgias desnecessárias quanto atraso no diagnóstico de malignidades. A ecoendoscopia com FNA/FNB pode auxiliar no diagnóstico diferencial dos tumores adrenais. No entanto, só deve ser indicada após discusssão multidisciplinar e a suspeita de feocromociotoma deve ser excluído antes da punção.
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Ecoendoscopia na avaliação das neoplasias da vesícula biliar
Introdução
A neoplasia da vesícula biliar é geralmente diagnosticada tardiamente devido à ausência de sintomas específicos. A ecoendoscopia tem papel central na caracterização morfológica, avaliação da invasão parietal e hepática, pesquisa de linfonodos regionais e possibilidade de diagnóstico anatomopatológico por punção ecoguiada. A proximidade anatômica, traz vantagem à ecoendoscopia em relação a ultrassonografia transabdominal e a tomografia na avaliação local detalhada.
Formas de Apresentação
As neoplasias vesiculares podem se manifestar sob duas principais formas morfológicas:
Forma Polipoide
Lesão focal intraluminal, geralmente sólida, séssil ou com base ampla.
Pode surgir sobre pólipo adenomatoso ou displásico (adenocarcinoma in situ).
No EUS, os padrões suspeitos de malignidade incluem:
Tamanho >10 mm.
Margens irregulares e heterogeneidade interna.
Aumento da vascularização ao Doppler.
Perda do padrão de camadas da parede adjacente.
Obs: Pólipos <6 mm, múltiplos e hiperecogênicos costumam representar pólipos de comportamento benigno
Forma Infiltrativa (Espessamento da Parede)
O tumor se apresenta como espessamento focal assimétrico, irregular e heterogêneo da parede da vesícula.
Pode ser diagnóstico diferencial com patologias benignas como colecistite xantogranulomatosa ou adenomiomatose, mas o EUS ajuda pela visualização das camadas da parede:
Preservação das camadas → processo inflamatório benigno.
Desorganização ou perda das camadas → invasão neoplásica.
A invasão hepática é sugerida por apagamento da interface hiperecogênica entre a vesícula e o fígado.
Figura 1 – Neoplasia de vesícula em visão ecoendoscópica. Imagem adaptada de Takahashi et. al.Diagnostics (Basel), 2024.
Estadiamento por EUS
Características
Correlação Estadio
Acurácia
Tipo A
Pediculado; camada adjacente preservada
Tis
100%
Tipo B
Séssil / base larga; hiperecoica externa preservada
T1
76%
Tipo C
Séssil; hiperecoica estreitada
T2
85%
Tipo D
Séssil; hiperecoica desorganizada
T3-4
93%
Sadamoto e colaboradores propuseram uma classificação que correlaciona os achados na ecoendoscopia com o estadio oncológico, apresentando boa acurácia nas lesões precoces e avançadas, representadas pelos tipos A e D.
Punção Ecoguiada
Permite diagnóstico diferencial entre neoplasia de vesícula e patologias benignas
Direcionamento de terapia guiada por marcadores genômicos
Avaliação de linfonodos acometidos / metastases hepáticas
Puncionar primeiramente estas lesões e na sequência o tumor primário
Contraindicações relativas: tumores claramente ressecáveis, devido ao risco (ainda que baixo) de disseminação peritoneal.
Evitar transfixar a luz da vesícula pelo risco de colecistite
Contraste Harmônico
Carcinomas: realce heterogêneo e irregular, com washout precoce.
Pólipos benignos: realce homogêneo e sustentado.
Aumenta a acurácia na distinção entre adenoma e carcinoma precoce, e na definição dos limites tumorais para planejamento cirúrgico.
Inteligência artificial
O uso de inteligência artificial e deep learning aplicados às imagens de EUS tem mostrado desempenho promissor para:
Diferenciar pólipos benignos e malignos
Detectar invasão da parede,
Estimar o estadiamento T com acurácia superior a 90% em estudos recentes
Conclusão
A ecoendoscopia representa ferramenta precisa para avaliação detalhada das neoplasias de vesícula biliar, permitindo a caracterização morfológica, vascular, estadiamento loco-regional e amostragem tecidual guiada, desempenhando papel essencial na definição da conduta.
Referências
Szpakowski JL, Tucker LY. Outcomes of Gallbladder Polyps and Their Association With Gallbladder Cancer in a 20-Year Cohort.JAMA Netw Open. 2020 May 1;3(5):e205143
Sadamoto et. al. Preoperative diagnosis and staging of gallbladder carcinoma by EUS.Gastrointest Endosc. 2003 Oct;58(4):536-41.
Takahashi et. al. Recent Advances in Endoscopic Ultrasound for Gallbladder Disease Diagnosis. Diagnostics (Basel). 2024 Feb 8;14(4):374
Obaid et al. Detection of Gallbladder Disease Types Using Deep Learning: An Informative Medical Method.Diagnostics (Basel). 2023 May 15;13(10):1744.
Esôfago de Barrett e Vigilância Endoscópica: o que as diretrizes recomendam e o que o BOSS Trial revela
Introdução
O adenocarcinoma de esôfago apresenta incidência crescente nas últimas décadas e mantém prognóstico reservado, com taxa global de sobrevida em cinco anos de aproximadamente 17%¹.
O esôfago de Barrett constitui a principal lesão precursora desse tipo de neoplasia, razão pela qual múltiplas sociedades médicas recomendam a vigilância endoscópica periódica como estratégia para detecção precoce de displasia e câncer inicial. Entretanto, as evidências que embasam a vigilância endoscópica em pacientes com esôfago de Barrett, em especial no que se refere ao intervalo ideal entre os exames, permanecem limitadas já que a maioria vem de estudos observacionais. Estudos populacionais indicam risco anual relativamente baixo de progressão para adenocarcinoma, variando de 0,12% a 0,22%¹. Portanto, atualmente, a qualidade da evidência que sustenta a vigilância endoscópica é muito baixa.
Nesse contexto, um recente estudo multicêntrico randomizado realizado no Reino Unido trouxe uma visão diferente da vigilância endoscópica dos pacientes diagnosticados com Esôfago de Barrett: a vigilância não melhorou a sobrevida global ou a sobrevida específica do câncer. A endoscopia sob demanda pode ser uma alternativa segura para pacientes de baixo risco¹.
Diretrizes atuais
As recomendações de vigilância endoscópica para pacientes com esôfago de Barrett apresentam pequenas variações entre as sociedades americana e europeia. A diretriz da American College of Gastroenterology (ACG) orienta que, na ausência de displasia, pacientes com segmentos <3 cm sejam submetidos à vigilância a cada 5 anos, enquanto aqueles com segmentos ≥3 cm devem ser acompanhados a cada 3 anos. Para casos de displasia de baixo grau não tratados endoscopicamente, a recomendação é de vigilância semestral no primeiro ano, seguida de acompanhamento anual².
Já a European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE) estabelece intervalos de 5 anos para segmentos de 1 a 3 cm e de 3 anos para segmentos entre 3 e 10 cm, recomendando ainda que pacientes com segmentos ≥10 cm sejam encaminhados a centros especializados³.
O artigo
O estudo BOSS foi o primeiro ensaio clínico randomizado e o maior já realizado sobre vigilância endoscópica no esôfago de Barrett. Foi um estudo multicêntrico aberto realizado no Reino Unido com 3452 pacientes randomizados e mais de 39.500 anos-paciente de seguimento. O objetivo foi comparar duas estratégias: endoscopia programada a cada 2 anos versus endoscopia apenas em caso de sintomas ou necessidade clínica.
O desfecho primário foi mortalidade por todas as causas, enquanto os desfechos secundários incluíram mortalidade por câncer, incidência de adenocarcinoma de esôfago e estágio da doença ao diagnóstico. O seguimento mediano foi de 12,8 anos, o que permitiu uma avaliação robusta da evolução da doença.
Nos resultados, observou-se que não houve diferença significativa entre os grupos em relação à mortalidade global: 333 mortes (19,2%) no grupo de vigilância versus 356 mortes (20,7%) no grupo sob demanda (HR 0,95; IC 95% 0,82–1,10). Da mesma forma, a mortalidade por câncer foi semelhante: 108 óbitos (32,4% das mortes) no grupo de vigilância contra 106 (29,8%) no grupo sob demanda (HR 1,01; IC 95% 0,77–1,33). Em relação à progressão para adenocarcinoma de esôfago, os números também foram muito próximos: 40 casos (2,3%) no grupo de vigilância e 31 casos (1,8%) no grupo sob demanda (HR 1,32; IC 95% 0,82–2,11), sem diferença estatisticamente significativa. Além disso, o estágio do câncer no momento do diagnóstico foi semelhante nos dois grupos, sem evidências de detecção mais precoce entre os pacientes em vigilância regular.
Outro achado relevante foi o impacto no uso de recursos: o grupo de vigilância realizou 6124 endoscopias, em comparação com 2424 no grupo sob demanda, resultando em uma taxa 1,6 vezes maior de procedimentos. Apesar do número elevado de exames, não houve melhora nos desfechos clínicos principais¹.
Limitações do estudo
1- Desfecho primário escolhido:
O estudo usou mortalidade geral como desfecho primário, porque a causa específica de morte pode ser registrada de forma imprecisa.
Embora essa escolha aumente a robustez, pode diluir um eventual efeito específico da vigilância sobre a mortalidade por câncer de esôfago.
2- Estimativas iniciais superestimadas
O cálculo do tamanho amostral foi baseado em um risco de progressão para adenocarcinoma de esôfago de 1% ao ano, valor aceito em 2009. Estudos mais recentes e os próprios dados do BOSS mostraram que o risco real é muito menor (~0,2% ao ano). Isso reduziu o poder do estudo para detectar diferenças entre os grupos.
3- Contaminação entre grupos:
Parte dos pacientes do grupo de vigilância não fez todas as endoscopias programadas. Enquanto no grupo “sob demanda”, 59% acabaram fazendo ao menos uma endoscopia. Essa sobreposição de condutas pode ter aproximado os resultados dos dois braços.
4- Intervalo prático entre endoscopias:
Embora o protocolo previsse exames a cada 2 anos, na prática o intervalo médio foi de 3 anos, refletindo dificuldades logísticas e adesão incompleta. Isso pode ter atenuado potenciais diferenças.
5- População estudada:
A maioria dos participantes era de raça branca, o que limita a generalização dos achados para outras populações.
6- Não cegamento:
Nem pacientes nem médicos puderam ser cegados quanto à alocação, o que pode introduzir algum viés em desfechos subjetivos, como estadiamento do câncer.
7- Avanços tecnológicos não incorporados:
Durante o período do estudo, surgiram novas técnicas endoscópicas e ferramentas de inteligência artificial para detecção precoce, que não foram avaliadas¹.
Conclusão
Os resultados do estudo BOSS trazem uma contribuição importante para a compreensão do real papel da vigilância endoscópica no esôfago de Barrett. Apesar de as principais diretrizes internacionais recomendarem endoscopias periódicas como forma de detectar precocemente displasias e adenocarcinomas, o estudo demonstrou que a estratégia de vigilância programada a cada dois anos não reduziu a mortalidade global nem a mortalidade específica por câncer, quando comparada à realização de endoscopias apenas sob demanda. O estágio dos tumores diagnosticados foi semelhante entre os grupos, o que indica que a vigilância intensiva não resultou em detecção mais precoce da doença. Esses achados desafiam o as diretrizes atuais e colocam em discussão a real efetividade da vigilância sistemática em pacientes com Barrett não displásico.
Outro ponto relevante do estudo foi a constatação de que o risco anual de progressão para adenocarcinoma é baixo, em torno de 0,2% ao ano, valor inferior ao que embasou as recomendações das diretrizes vigentes. Mesmo com quase três vezes mais endoscopias realizadas no grupo de vigilância, não houve ganho clínico significativo, o que levanta questionamentos sobre a custo-efetividade e a necessidade de exames tão frequentes. Embora tenha sido observada uma tendência de menor mortalidade entre pacientes acima de 65 anos submetidos à vigilância periódica, os autores ressaltam que esse achado deve ser interpretado com cautela, por se tratar de uma análise exploratória e sem base causal definida.
Embora esse único estudo não seja suficiente para alterar as atuais recomendações, ele levanta questionamentos sobre as estratégias de acompanhamento do esôfago de Barrett. Talvez a vigilância endoscópica deva ser direcionada de forma mais individualizada, considerando fatores como idade, extensão do segmento, sexo, comorbidades e presença de displasia. A endoscopia sob demanda pode vir a ser uma alternativa segura e com menos custo em pacientes de baixo risco.
Old O, Jankowski J, Attwood S, Stokes C, Kendall C, Rasdell C, Zimmermann A, Massa MS, Love S, Sanders S, Deidda M, Briggs A, Hapeshi J, Foy C, Moayyedi P, Barr H; BOSS Trial Team. Barrett’s Oesophagus Surveillance Versus Endoscopy at Need Study (BOSS): A randomized controlled trial. Gastroenterology. 2025 Apr 1:S0016-5085(25)00587-6. doi: 10.1053/j.gastro.2025.03.021. Epub ahead of print. PMID: 40180292.
Shaheen NJ, Falk GW, Iyer PG, Souza RF, Yadlapati RH, Sauer BG, Wani S. Diagnóstico e tratamento do esôfago de Barrett: uma diretriz atualizada da ACG. Am J Gastroenterol. 2022 Apr;117(4):559-587. doi: 10.14309/ajg.0000000000001680.
Weusten BLAM, Bisschops R, Dinis-Ribeiro M, di Pietro M, Pech O, Spaander MCW, Baldaque-Silva F, Barret M, Coron E, Fernández-Esparrach G, Fitzgerald RC, Jansen M, Jovani M, Marques-de-Sa I, Rattan A, Tan WK, Verheij EPD, Zellenrath PA, Triantafyllou K, Pouw RE. Diagnosis and management of Barrett esophagus: European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE) Guideline. Endoscopy. 2023 Dec;55(12):1124-1146. doi: 10.1055/a-2176-2440. Epub 2023 Oct 9. PMID: 37813356.